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24 de fevereiro de 2017

Ambição


Muito embora eu quisesse usar todos os dias, Channel tem um custo. Pois eu espero que a minha ascensão profissional e financeira seja tão grande quanto a minha ambição. Eu queria ser a mulher maravilha, poderosa, rica, no topo do mundo. Comprar o corpo que eu quero. Negociar com deus os meus anos de vida, e até mesmo umas férias no inferno. Atravessar o mundo em minutos. Não ter que me preocupar com mensagens não respondidas. Ah, como eu quero ir para o outro nível...

15 de fevereiro de 2017

Descrença



Take me to church
I'll worship like a dog at the shrine of your lies
I'll tell you my sins
So you can sharpen your knife
Offer me that deathless death
Good God, let me give you my life
(Hozier)

Sendo uma convicta ateia há anos, uma coisa na qual eu sempre vi motivos para escárnio foram os tão aclamados "milagres". Eu acabo de me formar e vejo gente falando que a graduação foi uma "benção" divina - mas me parece que quem trouxe a benção foram as nossas famílias que pagaram fortunas em mensalidades e livros e legislações, bem como a benção foi de nossa própria autoria, porque se não fosse nós mesmos estudar por dias a fio, fazer trabalhos, apresentações, pesquisas, por vezes viagens, não teríamos nos formado. Pois veja que tudo o que eu tenho foi eu mesma que consegui, ou alguém por mim, ou mesmo algo que, por vantagem social, me foi mais fácil ou acessível. Sei de gente que passa por necessidades básicas clamando por milagres; mas eu nunca vi uma panela de comida feita descer voando do céu e parar na mesa dessas pessoas; não, no máximo eu vi associações e pessoas generosas (todas ateias, por certo) fazendo caridade ou acionando o Estado para intervir. Reconheço que nem tudo é plenamente palpável pelo mero esforço; mas eu nunca vi ou tive notícias, como nos contos bíblicos, de coisas impossíveis acontecendo simplesmente com base em poderes mágicos, como o caso dos peixes caírem na rede às centenas para que o povo que ouve "a palavra" não passe fome. Não estou desprezando o valor da fé, contudo; a fé é a força que nos motiva. Mas é a fé humana, palpável, tangível, que tem valor - e não a crença absurda, cega e desarrazoada em mentiras míticas que vai te salvar.

13 de fevereiro de 2017

Exílio

Olá?

Tem alguém aí?

Há muito tempo eu estou tentando obter algum sinal. E vou continuar tentando. Eu só queria que alguém me tirasse daqui...

Há anos eu não ouço uma voz humana. Todos eles se foram. Meu único companheiro é o mar. O mar e o sol. O sol e a areia. Por quanto tempo mais esse cenário vai ameaçar me engolir?

Cartas nas garrafas, sinais no ar, uma tênue conexão quase perdida eu tento estabelecer. Fico horas mirando o horizonte, todos os dias, penando para que cada dia seja o último dia aqui. Será que ainda há esperança?

Mas será que alguém vai me descobrir, em vida?

Será que no mundo além do que eu enxergo alguém sabe que eu existo?

Eu não sei se eu me perdi ou se me abandonaram. Mas eu fico calculando o tempo com risquinhos nas rochas tentando especular quanto tempo mais eu irei sobreviver...

Tem alguém ouvindo?

Por favor, me salve dessa ilha amaldiçoada, eu estou aos poucos esquecendo as palavras. Eu não consigo sair daqui por conta própria...

Mas será que eu ainda vou sair daqui?

Por favor alguém me responda - é tudo o que eu peço - fale comigo, diga que esse sol e esse sal são somente um pesadelo, fala que tudo acabou e eu estou a salvo...

Fala comigo, alguém, pelo amor de Deus?!

Deus, Você está aí? Fala comigo?

Deus?

Todas as tentativas de comunicação retornam a mim. É como um ciclo inquebrável, uma maldição para quem desafiou a morte depois de um naufrágio...

Tem alguém aí, além de mim?


31 de janeiro de 2017

Tristesa


Wake up!
Grab a brush and put a little makeup
Hide the scars to fade away the shake up
Why'd you leave the keys up on the table?
Here you go, create another fable

Levantar da cama tem sido o maior desafio todos os dias, por mais que eu saiba que não posso ficar deitada o tempo todo. Não sinto mais ânimo em tocar a vida... Coloco a melhor roupa, o melhor vestido como se eu realmente me sentisse feliz com isso. Preciso, a todo custo, ocultar esse sentimento. Talvez uma maquiagem bem feita esconda o susto e o desamparo que a vida tem me dado nos aspectos que eu menos esperava. Não tenho grana e o começo da carreira é sórdido, e os meus amigos, todos, parecem ter me abandonado. Me pergunto se é que eu algum dia realmente tive amigos, ou se todos esses que eu considerava amigos só mantinham alguma relação estritamente cordial enquanto tinham algum interesse. Terapias não ajudam em nada... Ademais, a friendzone parece ser ainda pior que os círculos do Inferno de Dante. Uma pessoa que você estima e nem sequer lembra seu nome, mas quer te usar como step. Típico conto do vigário, no qual já não é a primeira vez que eu caio. Sonho com o dia em que serei lembrada por algo singelo e não apenas por favores ou dinheiro. Mas espero não ter que acordar tão logo em seguida...

28 de dezembro de 2016

Bom humor


Sabe, essas festas de fim de ano não interessam para mim. São apenas datas que os religiosos comemoram e eu vou no embalo para me juntar à minha família. Ademais, a passagem do ano para mim só conta quando eu efetivamente conto mais um ano de vida - e não pelo calendário tradicional. Mas tudo bem. Em vez de criticar, melhor encarar a vida com mais serenidade. Trocar o rígido senso crítico por uma rara brandura. Austeridade por doçura - parecendo até o título de algum daqueles trágicos romances da Jane Austen. Pois se não podemos mudar o mundo, o que nos resta é tirar sarro dele, divertir-se com a nossa inteligência, não sem um toque de humanismo e sensibilidade. Pois o que eu desejo a todos a quem realmente essas datas de fim de ano importa é isso: o melhor humor do mundo.
E que venha 2017. =D

26 de dezembro de 2016

Verão


Nós aqui no hemisfério Sul não temos como cultura contar a passagem do tempo pela passagem das estações, como o fazem outros países, a despeito de, ironicamente, a passagem das estações ser muito mais visível num país de céu azul e límpido como o Brasil (ao menos ainda é assim; vamos cuidar para que continue nos próximos séculos, combinado?). De qualquer forma, é certo que a passagem das estações influencia diretamente no nosso humor. O verão, por exemplo, dizem que trás o bom humor, tanto por fatores psicológicos como físicos - o clima que permite maior contato com ambientes abertos e a natureza, o que nos trás a sensação de paz e o bom humor, etc. Assim o verão, geralmente época de férias, também é uma época muito produtiva e saudável. Mesmo quando a temperatura gera a níveis alarmantes como acontece em algumas regiões, o nosso humor tende a permanecer estável e alegre. Interessante notar, pois, que a chegada verão é muito próxima da virada do ano. Parece que a natureza vem a nos instigar a termos um humor melhor no próximo ano. Vem a querer que o nosso ânimo de viver ferva assim como fervem os termômetros. Então, aos meus estimados internautas desejo boas festas e que tenhamos um verão incrível. :D

5 de setembro de 2016

ESTE BLOG TEM OITO ANOS!




Sim, senhoras e senhores!

Depois de sobreviver às mais insanas transições da internet;

Depois de passar por diversas fases da vida de uma autora anônima na internet;

Depois de sair do ar e voltar mil e uma vezes;

Depois de ter sido colocado a venda (e ter recebido sedutoras propostas de compra);

Depois de tudo isso, Antes-de-mais-nada completa seu oitavo ano de existência cibernética, graças ao auxílio de todos vocês!

Muito obrigada por tudo!

E, antes de mais nada, avante!

11 de agosto de 2016

Fôlego



Me sinto cansada, super atarefada, confusa e só, e parece que o tempo nunca basta. É que nem nadar. Você utiliza todos os seus músculos e toda a sua força em exíguo tempo, e você sente como se seu pulmão chegasse a arder. E se você parar para recuperar o fôlego você é considerada fraca. Mas eu respiro fundo - eu sou humana, e ninguém teria chegado longe se não tivesse começado devagar, com o coração disparado e sentindo como se todo o oxigênio do mundo não bastasse, com os olhos vermelhos e se esforçando apenas para manter o rosto fora d'água. Eu respiro fundo enquanto eu posso, porque logo eu mergulho de novo e lá eu vou empregar todo o meu vigor de novo.

19 de julho de 2016

Sorte



Go hard or go home.

Meu medo não é de fracassar, pois eu confio que meus esforços foram e têm sido progressivos; o medo é perder para esse fator adverso incontrolável. Não quero contar com a sorte, nem positivamente, a não ser que ela venha apenas incrementar o que eu já construí. Só quero ir para a etapa a seguir se for por mérito, pela minha longa e obstinada dedicação.

Não quero nada de graça.

15 de julho de 2016

Cansada




Queria poder me deitar um pouco, encostar a cabeça no travesseiro e relaxar. Ler ou assistir qualquer coisa boa o suficiente para me tirar virtualmente daqui. Queria ao menos poder aliviar dos meus músculos essa sensação de fraqueza, de que me faltam as forças... Mas eu tenho tanto a fazer, tanto, mas tanto, que a mera perspectiva de parar por um instante parece um crime. E eu só queria um café.

5 de julho de 2016

Contagem regressiva



Não tenho muito a dizer dessa vez. Está quase chegando a minha vez na batalha, e eu creio que eu deva me abster desse recanto virtual, ao menos temporariamente. Mas não se preocupe: vou me retirar apenas para aquecer, porque eu me creio plenamente apta. Estamos quase lá, todos nós. É apenas uma questão de dias...

26 de junho de 2016

Solidão




Me sinto só, 
Mas quem é que nunca se sentiu assim
Procurando um caminho pra seguir, 
Uma direção?

Não, não estou reclamando. Estar só nem sempre, como sugere o termo solidão, indica tristeza, dependência ou insucesso social ou afetivo. É uma necessidade. Um bem que você faz a si mesma e aos outros: abster-se. Deixar acontecer. Marcar presença pela ausência e pelo silêncio. Solidão é autoconhecimento, é liberdade, é amor-próprio. Não quero dizer que devemos ser absolutamente solitários e autossuficientes; não. Mas acho que ao menos uma vez na vida temos que nos permitir estar completamente a sós com a essência do nosso ego. Sozinha você pode refletir, pode se encontrar, pode se perdoar e se permitir outra tentativa, uma busca mais além. Sozinha você encontra paz.

20 de junho de 2016

Sonhos



I want to say I'll live each day
Until I die.
And know that I had something
In somebody's life.

The hearts that I have touched
Will be the proof that I leave
That I made a difference
And this world will see:
I was here
(Beyonce - I was here)

Indagando-me mentalmente sobre o porquê de as nossas maiores vontades, as nossas metas de vida serem denominadas "sonhos" eu chego à conclusão de que, quando nós realmente queremos algo, com todas as nossas forças e afincos, nosso cérebro produz uma atividade mental semelhante àquela da atividade onírica, não raro ambas se confundindo. Pois veja que nesse mundo, todo mundo é obrigado a sonhar, a propor à si e à sociedade uma ambição. Causa horror e indignação se, quando lhe perguntam suas metas, se responde que não existem, que se está bem na situação atual e que não há perspectiva de mudança. Vivemos, então, nessa perspectiva - e obrigação - de mudança. E não há que se censurar: nada mais humano do que se deslocar para se encontrar. Mas existe um ponto em que nós, num futuro longínquo ou em breve, buscaremos descanso. Então, porque devemos "sonhar" para nós mesmos? Porque não sonhar para os outros - com os outros? É legal almejar uma carreira, um cargo bem remunerado, mas porque não sonhar com um mundo que respeite mais o meio ambiente, com uma sociedade mais justa, menos corrupta? Já que somos obrigados a buscar o progresso (que é um conceito extremamente relativo), porque não almejar chegar aos 90, 100 anos podendo olhar para a sua vida e dizer: eu dei o melhor de mim para esse mundo que em breve eu deixo? Pode parecer uma posição ingênua, a minha; pode parecer que eu incorporei o Cândido de Voltaire, mas eu me proponho a fazer isso, daqui pra frente, e a convencer outros a assim ser também, e combater veementemente qualquer colocação contrária. Quem vem comigo?

18 de junho de 2016

Brainstorm



Sinceramente, tudo o que é excêntrico, diferente, divergente, ou até mesmo incorreto, de certa forma, me atrai. Nem que sejam coisas pequenas, como pequenas coisas no cotidiano. Pois eu acredito que o nosso cérebro, órgão central tão incrivelmente hábil, precisa, justamente, não do que é igual e em todos efeitos corretos, mas sim do estímulos do que diverge da regra. Nossa maior característica como humanos é a nossa habilidade de contestar. Arguir, acusar, replicar, defender - todo esse jurismo cotidiano pode ser aplicado ali dentro, se nos depararmos com alguma pequena diferença, um detalhe até então despercebido mas que pode agregar muita informação se esmiuçado. Nossa mente é naturalmente estimulada, pelas informações que recebem, assim como nossa pele é naturalmente tratada pelo espontâneo acesso à luz; mas eu acredito que temos que ir além do que vem prontamente. Sem a busca de estímulos o cérebro definha, a mente atrofia. Nossa cabeça tem que ser dinâmica e incandescente, como bem sugere o título dessa postagem: uma tempestade mental.

6 de junho de 2016

Ideias revolucionárias


Quando você tem treze anos você acha que vai mudar o mundo. 

Você acha que é diferente, que ninguém te entende - típico sentimento adolescente. Mas não tarda pra você descobrir que o que é mais comum no mundo é ser diferente e incompreendido - ser diferente é justamente a normalidade, ao ponto de que você precisa compreender, primeiro, como é ser comum para depois querer ser diferente. 

Você queria ser um gênio, mas seu cérebro não é super dotado.

Queria ser artista, mas seus desenhos não tem boa estética nem sequer um padrão inovador.

Quer ser mais inteligente, e se mata de estudar, justamente para chegar no mesmo lugar em que todos chegam.

Talvez com disciplina, assiduidade e esmero você chegue mais longe do que a maioria das pessoas da sua idade e posição social - o que, aliás, é bem provável; você é capaz e sabe disso. Mas riqueza e status social não é tudo o que eu quero...

O ingênuo anseio de mudar o mundo aos poucos se revela um esforço descomunal, maior do que você.

31 de maio de 2016

Desânimo


Já perdi as contas de quantas vezes eu senti aquela expectativa, aquele frio na barriga, aquela vontade de me entregar... 




E realmente, eu, centenas, milhares de vezes, me entreguei, mergulhei de cabeça, dei tudo de mim - para me decepcionar, ou falhar no meu intento, ou ver que o que eu realmente queria estava mais além.

E ainda sinto a vontade de recomeçar, de levantar e sair à caça, atirar mil vezes para talvez acertar - mas como eu já fiz isso tantas vezes eu já conheço o roteiro de cor e salteado, e essa previsibilidade dos fatos humanos tira a graça das coisas.

É que nem se apaixonar por uma pessoa que você acabou de conhecer ou arranjar um novo emprego. Você ama a perspectiva de estar numa situação nova, vivenciar novas emoções, mesmo consciente de que a rotina vai logo logo amargar essa adrenalina e que nem todo mundo tem essa mesma empolgação.

Você sabe que talvez não dê certo e a probabilidade de não ser como você imagina é gigante, mas ainda assim você vai, você começa - ou melhor, fazia isso outrora, quando você ainda era inexperiente nos assuntos de seres humanos sociáveis. Agora são poucas as novidades, ninguém lhe surpreende - ao contrário, todas as pessoas parecem demasiado óbvias e enfadonhas. O que antes parecia a mais pura magia agora parece uma ilusão de óptica das mais mesquinhas.

30 de maio de 2016

Remorso



E o pior é ter que lidar com esse sentimento quando justamente o que você quer é dizer a si mesma que você não fez nada de errado, que o melhor é seguir em frente, pensar somente em si. 

Obrigar-se a esfriar, a ignorar o choro, a engolir a dor - ainda que a dor alheia. 

E o seu orgulho te coage violentamente a degolar a mínima possibilidade de pedido de desculpas, e você aceita, se submete a esse orgulho cedo sabendo que no fundo você está sendo cruel consigo mesma também. Pois veja que a pior violência é a violência que cometemos contra nós mesmos, e essa violência pode se manifestar de diversas formas - inclusive na forma em que você suprime toda a sua sensibilidade e humanismo, atropela a sua imatura empatia e permite dominar apenas (isso se é que permite) sentimentos ilusórios como a vaidade e a arrogância, a preponderância falsa de si. 

Todos os filósofos que eu li e dos quais eu me gabo de fazer eruditas referências nos meus trabalhos não me ensinaram isso - definitivamente não -, seja por qualquer das vias da razão ou da emoção. E também a minha mãe, a mais sábia de todos, sempre me ensinou a esclarecer tudo, a ser humilde, a me dobrar quando necessário, a tentar por todos os meios reparar o prejuízo, a me redimir pelo meu erro. 

Mas eu prefiro ignorar. Sim, eu prefiro não querer saber como é que eu cheguei a esse ponto, prefiro deixar tudo para trás. Fingir que eu não me acuso, fingir que não me defendo e não confesso. Me guiar por uma luz artificial e falha fingindo que ela é o sol, e ao menos, no fundo, bem lá no fundo, saber que o pior erro foi cometido contra mim mesma, a quem eu não perdoo e a quem eu não peço perdão.

26 de maio de 2016

Frio


Perdi as contas de quantas vezes eu vi meus dedos roxos e eu perdi a sensibilidade nessa região. Lábios rachados, o vento tão gelado que parece que vai cortar a pele... A grama amanhece dura, as árvores que não perderam sua folhagem no outono agora tem suas folhas duramente agredidas, o clima obstinado a não deixar nenhuma. É a época que as estatísticas apontam como maior período de incidência de crimes famélicos aqui no sul e demais regiões frias; talvez seja porque o espírito humano se encruece e as necessidades sejam maiores e supervenientes. Talvez seja, também, uma decorrência de uma tendência primitiva de acreditar, ainda que instintivamente, de que não há muita perspectiva de sobrevivência toda vez que a natureza nos agride. De fato, é uma estação apocalíptica - mas é um apocalipse frio, desumano, insensível, com cada um se preocupando - apenas - com o próprio fim e não o da espécie.

21 de maio de 2016

Procura-se um melhor amigo


E o que eu procuro hoje é um amigo ou amiga. 

Alguém que prometa que não vai me abandonar quando estiver namorando, ou quando encontrar um outro amigo mais rico ou popular.

Alguém que prometa, também, que não vai só lembrar de mim quando precisa de um favor, de dinheiro ou quando não tem outra pessoa para ir junto na balada.

Queria uma amizade que não fosse apenas escutar os problemas e ceder favores acadêmicos/profissionais.

Tô cansada de receber milhões de mensagens de gente me pedindo coisa sob o pretexto de me ter como "amiga" e nunca ceder, nunca estar disponível quando eu peço apenas uma boa conversa. 

Talvez amizade seja mais uma das ilusões que a sociedade nos ensina. Um treino a poses prontas e sorrisos armados para fotos em facebooks. E só.

E talvez a gente só encontre a amizade, ou ao menos um pingo de humanidade nessas relações tão formais, tão convenientes, quando a gente desliga o celular e diz a todo mundo que ele está quebrado, que eu não tenho mais notebook e roubaram meu tablet - eu estou desconectada e não vou me vender novamente para parecer sociável. 

Me parece que a solidão absoluta é mil vezes melhor do que se enganar a esse ponto.

3 de maio de 2016

Focus




Virou as costas para mim e disse-me que não saberia lidar com a minha falta de tempo; que não suportaria a distância; que eram intoleráveis as mentiras e traições; que as nossas opiniões conflitavam demais. Me desejou a melhor sorte do mundo e foi embora, ressentido. Um a um eu confessei todos os meus crimes; realmente eu fiz coisas terríveis, mas nada que não seja aceitável por um ser humano mediano que segue seus instintos mais primitivos. E ele também não foi um santo o tempo todo. Que seja: ele me dirigiu uma despedida amargurada e se foi sem olhar pra trás, me deixando no chão, de punhos cerrados e chutando o ar, remoendo todas as minhas atitudes e a sua súbita falta. 

Mas antes que a depressão viesse, antes que as lágrimas fizessem menção de chegar, eu me recompus. Refiz a maquiagem, da mesma maneira que refiz centenas de vezes enquanto ele estava ali deitado, liguei para uma amiga e saí curtir a noite que chegava. Eu havia pedido perdão, mas no fundo não lamentava. Agora eu poderia trabalhar até mais tarde sem remorso, poderia ler todos os livros que estavam acumulados, poderia voltar a fazer as comidas que eu gosto e ao meu gosto, poderia correr na rua sem ter que esperar a companhia, poderia me vestir e me arrumar como eu quisesse, sem ter meu look censurado pelo ciúmes. E o melhor de tudo é que eu finalmente poderia jogar fora a minha lista de desculpas esdrúxulas: estou livre. Minha amiga chamou outras amigas, e a primeira rodada do chop foi por minha conta. Em menos de cinco horas eu arranjaria outro cara, e cedo no dia seguinte esse outro cara me deixaria também, mas me deixaria remoendo a minha imagem enquanto eu escolho os acessórios para estrear meu vestido novo. Não foi em vão que ele me jogou na cara todo o meu egoísmo. 

Admito que eu senti sua falta, e muito: uma saudade extremamente dolorida que eu não fiz questão de anestesiar. Mas eu segui em frente, não cedendo à forte tentação de ligar. Os dias foram passando - alguns dias excelentes, outros com más notícias - e eu fui me esquecendo como era estar junto, me acostumando cada vez mais à vida de leoa solitária. Restabeleci por completo meu foco e vi que as minhas prioridades são tão complexas que não há espaço para relacionamento, por hora. Ele se foi, eu errei, e só me restou o meu foco, a minha disciplina e o meu esforço, e a lição de nunca mais atirar para errar.
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