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22 de fevereiro de 2017

Cinco minutos


Eu disse: você tem cinco minutos. Estava farta - você implorava - e eu não sou paciente como um santo. Eu achei que você era só mais um louco. Me enganei. E estava certa. A verdade é que cada louco é único. Não leve a mal, antes louco que apático. Eu disse: cinco minutos - e você teve cada minuto, cada segundo, como se fosse o último da humanidade. Achei graça. "Afinal", eu pensei, "cinco minutos são suficientes para salvar o mundo". No quinto minuto você não cessou, falava da sua vida, me dizia poder contar contigo, dizia querer ajudar. Interrompi: pois bem, quando precisar, afirmei, espere que eu chamo. Eu chamo, e que esteja disponível. Você disse que estaria. E eu achei que não chamaria. Mas onze dias depois, nas suas próprias contas, eu chamei e você não estava. Mais uns três dias, talvez, e você trombou comigo. Você mal parava de falar, e eu só olhava. "O que as pessoas veem de bom em mim?", pensei. Eu não quis me expor. E o mundo ainda que salvo é cheio de imprevistos. Você perguntou muito e eu respondi pouco. Eu me perguntei: "qual é o segredo dessa persistência?" Eu dizia: por favor, não hoje - e você dizia: tudo bem, quando quiser. Eu queria ter um milésimo da paciência que você tem. Filantropia é uma coisa que eu desconheço, meu caro. Mas é uma coisa que eu gostaria de entender. Eu queria ter um milésimo da paciência que você tem. Eu disse: Tá ocupado? Você disse: cinco minutos... só. Espere.  Eu não sou paciente como um santo. Eu achei que eu teria paciência pelo menos uma vez na vida. Me enganei. E estava certa. A verdade é que louco é aquele que se engana consigo mesmo. Não leve a mal, antes louca que apática. Você disse: só cinco minutos. E cada minuto - para mim - passou como um milhão de anos. E eu vi a ironia em mim mesma. "Afinal", pensei, "em cinco milhões de anos, surge um novo mundo".

(E aposto que você entendeu nada)

13 de fevereiro de 2017

Exílio

Olá?

Tem alguém aí?

Há muito tempo eu estou tentando obter algum sinal. E vou continuar tentando. Eu só queria que alguém me tirasse daqui...

Há anos eu não ouço uma voz humana. Todos eles se foram. Meu único companheiro é o mar. O mar e o sol. O sol e a areia. Por quanto tempo mais esse cenário vai ameaçar me engolir?

Cartas nas garrafas, sinais no ar, uma tênue conexão quase perdida eu tento estabelecer. Fico horas mirando o horizonte, todos os dias, penando para que cada dia seja o último dia aqui. Será que ainda há esperança?

Mas será que alguém vai me descobrir, em vida?

Será que no mundo além do que eu enxergo alguém sabe que eu existo?

Eu não sei se eu me perdi ou se me abandonaram. Mas eu fico calculando o tempo com risquinhos nas rochas tentando especular quanto tempo mais eu irei sobreviver...

Tem alguém ouvindo?

Por favor, me salve dessa ilha amaldiçoada, eu estou aos poucos esquecendo as palavras. Eu não consigo sair daqui por conta própria...

Mas será que eu ainda vou sair daqui?

Por favor alguém me responda - é tudo o que eu peço - fale comigo, diga que esse sol e esse sal são somente um pesadelo, fala que tudo acabou e eu estou a salvo...

Fala comigo, alguém, pelo amor de Deus?!

Deus, Você está aí? Fala comigo?

Deus?

Todas as tentativas de comunicação retornam a mim. É como um ciclo inquebrável, uma maldição para quem desafiou a morte depois de um naufrágio...

Tem alguém aí, além de mim?


10 de fevereiro de 2017

Loucura



Eu nem sei ao certo como fazer isso, como escrever esse bilhete, mas todos na minha situação o fazem então eu também o farei, ainda que minhas palavras não fiquem claras e ninguém compreenda - ainda que me julguem, que me amaldiçoem por isso; Deus perdoa os loucos. Começou com lapsos de memória, lembranças que eu não tinha, encontrava pessoas que eu nunca tinha visto mas que pareciam estranhamente familiares com seus sorrisos diabólicos. Aos poucos eu fui esquecendo todo o sentimento que um dia eu tive. Fui ficando vazio no peito mas com um vulcão de neve em erupção na minha cabeça. Ainda que eu gritasse, não falava mais alto que as vozes sobre-humanas que me sussurravam aos ouvidos. Ainda que eu parasse, ainda que eu corresse, meus pés me guiariam por um mesmo caminho para o mal... Você não entende, porque isso não aconteceu com você. Se você soubesse... Um dia eu me deitei na minha cama para dormir, e acordei em pé, na escada. Mas eu vestia algo que não eram as roupas de dormir, e... E eu tinha deixado as portas trancadas. Eu procurava alguma coisa, mas o quê? Na verdade tinha alguma coisa procurando por mim, expulsando a minha sanidade. Eu percebi isso quando eu me olhei no espelho e vi aquele mesmo sorriso diabólico na minha figura mas que não era eu, era algo além de mim, que aos poucos me destruía. Você nunca vai entender, mas naquele momento eu vi: era o meu fim. Por isso eu fiz a última coisa sensata que a minha mente obstruída me permitiu, não por mim, mas pelo bem do todos. Encostei a arma na orelha, puxei o gatilho, e por fim perdi a identidade.

6 de fevereiro de 2017

Paranoia

Você já se sentiu exposto? Já sentiu que alguém pode estar investigando a sua vida nas mínimas palavras que você declara na Internet? Estamos te observando. Não, isso é bobagem. Seria o mesmo que dizem que o seu vizinho está querendo saber da sua vida, anotando seus horários e mexendo no seu lixo. Isso seria absurdo. Ou não? Porque alguém iria querer saber da vida do outro? Pois é. Porque as pessoas fofocam, fazem intriguinhas e todas essas maldades? Cuidado. Alguém pode estar te assistindo de camarote e você nem perceber. Pode estar calculando todos os seus passos. Mas se você não quer ser visto, se interne numa caixinha de metal. Ninguém é onisciente, nesse mundo cada um cuida da sua vida. Talvez. Ou então existe algo maior do que Deus, rindo do nosso miserável destino? Os seres humanos são bons, são justos. Na verdade eles são trogloditas egoístas. Não! Não são. Já cansei de me mandarem procurar um psicólogo. Mas porque eu devo pagar alguém para ouvir minhas maluquices? Daqui a pouco eu esqueço tudo. Mas outra hora tudo vem a tona de nova. Não, não, não. Sim... Tudo vai ficar bem, o mundo é lindo. Pensando bem, não é não.

3 de fevereiro de 2017

Obsessão

Começou como uma simples ideia, aparentemente brilhante, um projeto, uma plano para o futuro. E lá fui eu. Todos admiraram a minha determinação. Alguns investiram nisso comigo, trocávamos estímulos e comparávamos resultados. Tudo no começo é empolgação, mas nem todos mergulham de cabeça... Muitos desistiram, e ao longo do caminho outros foram desistindo. Isso não é para mim, diziam. Mas eu persisti. Fracos, pensei. Fechei o círculo para me dedicar mais. Comecei a acordar mais cedo e a ir dormir mais tarde. Passava menos tempo em casa ou me trancava no meu quarto. Ás vezes minha irmã me ligava, perguntava se eu não precisava conversar um pouco, talvez isso me fizesse bem. Eu disse que não, que me deixasse em paz, por favor, eu tinha mais o que fazer. E o tempo começou a correr mais rápido. Não tinha mais outra coisa na cabeça. Mal dormia, as vezes nem comia. Não importa, tudo por uma causa justa... Chegaram a me perguntar que tipo de Frankenstein estaria eu criando. Cafeína, calmantes, e nada de luz solar ou ar puro. Quando eu conseguir, sim, quando tudo acabar, eu pensava, eu me preocupo em recuperar a minha saúde - e vai ser em breve. Não me permitia qualquer descanso; todo tempo livre deveria ser aplicado. Não conseguia falar mais sem demonstrar um mínimo de irritação. Minha irmã apareceu na porta do meu quarto, de madrugada, me perguntou se eu não iria dormir. Eu disse a ela para me deixar em paz e fechar a porta, e que não voltasse mais. Mas ela insistiu: Porque você não procura um psiquiatra? Eu me irritei: E porque você não procura um veterinário?! Fechei a porta sem pedir licença e me tranquei. As coisas começavam a dar errado e eu não desistia. Insistia em acreditar naquela doce ilusão a qual eu me entreguei. Vai tudo dar certo, murmurava comigo. Eu negava a verdade que cutucava o meu ombro. Eu já não falava mais com ninguém. Vivia como um fantasma num mundo isolado que eu criara. Lembro de ter visto no espelho uma face pálida de olhos bem abertos. Então, foi esse poltergeist que eu me tornei? Haveria alguém a culpar, a não ser a mim? Eu me deixei enganar por uma utopia e perdi tudo, completamente...

23 de janeiro de 2017

Eu só queria um café



O mundo está tão cheio de livros mas grande parte deles não te estimula a sair da primeira página. Não nego que há muitos bons livros mas esses devem estar  bem escondidos atrás dos mais caros, com a melhor edição, capa mais pomposa. Os melhores não devem estar em e-book, circulando pela internet, para download em um blog. Não! Não querendo dizer que esses não sejam bons - não sei - mas eu busco algo... Diferente. Algo que não se faça com tanto esmero no século XXI. Um que não tenha vocabulário lugar-comum de best seller. Um que não tenha personagens mesquinhos mas que também não sejam perfeitos. Um que mostre não (só) os altos níveis intelectuais do autor; um que mostrasse uma brechinha da alma do mesmo. É pedir muito? Aquele livro que te prende, te vicia, te faz querer viver para ler as suas páginas antes de mais um gole de café - cadê? Aquele que marca a história, aquele que muda a sua vida. Aquele que te deixe triste quando acaba - não por o final em si ter sido ruim - mas pelo fato de ter chegado a última linha da última página e o encanto acabou. Que droga. E quando esse acaba, será que eu vou encontrar outro? Bem... Não sei se é a minha mente lunática, mas eu vou atrás de outro bom livro para ler como se fosse o último da minha vida. Mais um café, por favor.


Publicado originalmente em 15/08/2011.

20 de janeiro de 2017

Platônico



Platão morreu sem ter noção do significado que nas gerações posteriores seria atribuído ao seu nome. Eu acho que tal conceito alcançou uma dimensão mais avassaladora do que o filósofo poderia imaginar. O ideal, o perfeito, o belo... Você sabe como é isso na prática? Saiba que não é algo que com facilidade você ilustra com palavras. Pensa: você passou a infância sonhando com super-poderes e de repente você descobre que tem a habilidade de ser invisível e isso não é tão maravilhoso como parecia. De repente você descobre o ideal, o perfeito, o belo, mas não pode atingi-lo. Na sua condição de invisível, você pode somente observar com os olhos de um faminto que observa o banquete dos deuses... Você nunca vai alcançá-lo. Nunca. Jamais. Eis o fardo que você terá de carregar. E se você alcançá-lo - não, não tente alcança-lo, desista. Se você alcançá-lo ele não será mais ideal, perfeito, belo, e você descobrirá que o príncipe não é tão encantado como prometia. Ah, que droga.

Publicado originalmente em 2011.

16 de janeiro de 2017

100 tempo




Já não tenho mais a habilidade de fixar fisionomias e nomes... Na verdade eu nunca tive, mas hoje eu chego ao extremo de só lembrar o meu próprio nome; o resto eu confundo tudo... Alguém que eu nunca vi na minha vida me cumprimenta e sabe meu nome, me pergunta como vão as coisas... Quase não sei a diferença entre Um e Todo Mundo... Mas os aniversários eu lembro... Prazos, vencimentos, inícios e encerramentos - datas eu lembro... Enfim... Ops, me atrasei.

11 de janeiro de 2017

Sobre o que atualizar?



Sem discurso de começo de ano, não vejo utilidade nisso. A questão é que me pediram para atualizar com mais frequência e eu disse que faria o possível, me disseram que qualquer coisa que eu escrevesse, qualquer coisa mesmo, ficaria bom, e eu acreditei, mas... Escrever qualquer coisa ao meu ver é o mesmo que colocar uma roda em cima de uma banqueta e afirmar que aquilo é arte e querer ser bem aceito.  Férias, férias, férias. São cáusticas, e eu não sei quando elas vão acabar. É horrível ter que ficar o dia inteiro tentando arranjar algo para fazer. Parece que nenhum livro é bom, as músicas enjoam, as pessoas enjoam. Quando a oficina fica estática por muito tempo ela começa ficar propensa ao mal... Dessa vez eu não arranjei nenhuma figura para encher linguiça em postagens breves como eu já fiz outras vezes, nem uma frase clichê, nada. Ausência completa de alternativas descartáveis. Só eu e a minha mente, num monólogo intermitente. Eu queria saber fazer poemas, mas eu sou muito desorganizada para construir versinhos. Eu queria ser ourives e fazer peixinhos de ouro. Eu queria é voar!... Voltando: Terminando, na verdade: Daqui uns dias eu vou achar essa publicação um estrume e vou apagar, como eu faço na maioria das vezes. Pronto, pronto; já escrevi qualquer coisa que você queria, agora tchau.
Sobreviva mais um ano  Tenha um bom ano.

Publicado originalmente em 2010.

5 de janeiro de 2017

Procras...

Procrastinação: ato ou efeito de adiar, de postergar. Preguiça. Moleza de espírito. É aquilo que você sente quando você não tem nada para fazer e ainda assim não quer ter algo para fazer, ou, pior ainda, quando você tem milhares de coisas a fazer e quer se ver livre de tudo, espontaneamente alérgico a rotinas e obrigações. Não que o que você faça e o ritmo que você leve sejam obrigatórios; você faz se você quiser, mas se você não fizer você se ferra. Nessas horas você se arrepende de não cursar mais a sétima série e ter rezado tanto para se formar... É um tédio passivo, um estoicismo vadio. Ojeriza. Indisposição, descrença egoísta, ócio destrutivo. Se você considera a morte não é que você seja depressivo mas sim que você tem preguiça de viver. Ah. E de que me adianta saber tudo isso? Não sei. Eu tenho muitas coisas a fazer, mas até de terminar esse texto eu tenho preguiça. (Que feio).


Publicado originalmente em 26/11/11.

24 de dezembro de 2016

Até faz sentido


Ah, o Português... O problema é que a gente fala a mesma língua e mesmo assim as vezes a gente se desentende. O meu problema é que eu leio mais do que respiro e ainda assim consigo errar muito. Tem um Português que mexe comigo e acho que nesse ponto você sem dúvida me entendeu (não acredito que eu falei isso). Se o Português tivesse tomado outro rumo no passado eu hoje seria outra pessoa. Mas eu fui condenada a esse idioma estranho num país estranho de pessoas estranhas. O Português não é estranho... Mas não o Português que você está pensando, o Português que só eu sei. Tem algum Português que abala as suas estruturas? (Não responda). O meu Português é diferente do seu mas no fundo é igual. Afinal dizem que eles são todos iguais... Eu sei que eu só me perdi no meio de um monte de palavras sem sentido, mas se o canibal tivesse devorado o Português no passado o Português hoje não devoraria nossas carreiras. Termos, aglutinações, expressões, regras, chantagens emocionais... Ãhn? Muita gente frustrada que nem eu odeia dicionários de Português mas lidando com a arte da palavra escrita não pode dispensar. Que tragédia, não? Precisar de um Português... Digo, precisar *do* Português, você entende né? Eu já sonhei em atravessar o oceano e esquecer dele (o Português), mas eu sei que eu atravesso o oceano e é o Português que eu vou encontrar, e aí a tortura começa de novo.

Publicado originalmente em 04/10/2011.
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