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2 de junho de 2017

Imaginação



É claro, é óbvio, que eu imagino como é o seu corpo por baixo daquelas roupas largas que você usa.

E não, eu não imagino - e nem quero - um corpo perfeito, tipo aqueles caras horrivelmente bombados que só existem no instagram. Não... Eu imagino - e quero - um corpo que tenha bastante resistência física, entende?

Então eu imagino - sim, eu imagino, porque a imaginação não tem limites, imaginação é liberdade, imaginação é uma especulação de tornar algo em realidade - eu imagino a pele por baixo do tecido. Como serão os seus pelos corporais? São da mesma cor que sua barba e cabelos (que ironicamente não têm a mesma cor?) Será que você tem cicatrizes? Ou tatuagens? Qual será o tamanho... ?

Que você é bem mais alto que eu e que a maioria das pessoas, já sei. Mas seu porte físico é difícil de especular. Quem dirá seus pontos sensíveis.

Eu imagino sem me censurar, mas me contenho. Sei que logo vai chegar a hora em que descobrirei...

20 de março de 2017

Perder


Ninguém se lembra de você na hora da festa, mas se lembram na hora que as coisas apertam. Sem tanta grana e sem habilidade de mentir tão bem; quem iria se interessar? Não conseguir a vaga pretendida, nem o emprego almejado, nem mesmo ser lembrada pelos seus amigos, a despeito da sua própria insistência, e ter toda a sua reserva financeira pilhada por absurdas tarifas... Essas pequenas perdas são como alfinetes nas veias. Não dá vontade de largar tudo, ir embora e recomeçar tudo, invisível? Queria ao menos ser sociopata; talvez não traria mais sucesso, mas ao menos eu não seria sensível a essas misérias que viram o jogo.

15 de fevereiro de 2017

Descrença



Take me to church
I'll worship like a dog at the shrine of your lies
I'll tell you my sins
So you can sharpen your knife
Offer me that deathless death
Good God, let me give you my life
(Hozier)

Sendo uma convicta ateia há anos, uma coisa na qual eu sempre vi motivos para escárnio foram os tão aclamados "milagres". Eu acabo de me formar e vejo gente falando que a graduação foi uma "benção" divina - mas me parece que quem trouxe a benção foram as nossas famílias que pagaram fortunas em mensalidades e livros e legislações, bem como a benção foi de nossa própria autoria, porque se não fosse nós mesmos estudar por dias a fio, fazer trabalhos, apresentações, pesquisas, por vezes viagens, não teríamos nos formado. Pois veja que tudo o que eu tenho foi eu mesma que consegui, ou alguém por mim, ou mesmo algo que, por vantagem social, me foi mais fácil ou acessível. Sei de gente que passa por necessidades básicas clamando por milagres; mas eu nunca vi uma panela de comida feita descer voando do céu e parar na mesa dessas pessoas; não, no máximo eu vi associações e pessoas generosas (todas ateias, por certo) fazendo caridade ou acionando o Estado para intervir. Reconheço que nem tudo é plenamente palpável pelo mero esforço; mas eu nunca vi ou tive notícias, como nos contos bíblicos, de coisas impossíveis acontecendo simplesmente com base em poderes mágicos, como o caso dos peixes caírem na rede às centenas para que o povo que ouve "a palavra" não passe fome. Não estou desprezando o valor da fé, contudo; a fé é a força que nos motiva. Mas é a fé humana, palpável, tangível, que tem valor - e não a crença absurda, cega e desarrazoada em mentiras míticas que vai te salvar.

10 de fevereiro de 2017

Loucura



Eu nem sei ao certo como fazer isso, como escrever esse bilhete, mas todos na minha situação o fazem então eu também o farei, ainda que minhas palavras não fiquem claras e ninguém compreenda - ainda que me julguem, que me amaldiçoem por isso; Deus perdoa os loucos. Começou com lapsos de memória, lembranças que eu não tinha, encontrava pessoas que eu nunca tinha visto mas que pareciam estranhamente familiares com seus sorrisos diabólicos. Aos poucos eu fui esquecendo todo o sentimento que um dia eu tive. Fui ficando vazio no peito mas com um vulcão de neve em erupção na minha cabeça. Ainda que eu gritasse, não falava mais alto que as vozes sobre-humanas que me sussurravam aos ouvidos. Ainda que eu parasse, ainda que eu corresse, meus pés me guiariam por um mesmo caminho para o mal... Você não entende, porque isso não aconteceu com você. Se você soubesse... Um dia eu me deitei na minha cama para dormir, e acordei em pé, na escada. Mas eu vestia algo que não eram as roupas de dormir, e... E eu tinha deixado as portas trancadas. Eu procurava alguma coisa, mas o quê? Na verdade tinha alguma coisa procurando por mim, expulsando a minha sanidade. Eu percebi isso quando eu me olhei no espelho e vi aquele mesmo sorriso diabólico na minha figura mas que não era eu, era algo além de mim, que aos poucos me destruía. Você nunca vai entender, mas naquele momento eu vi: era o meu fim. Por isso eu fiz a última coisa sensata que a minha mente obstruída me permitiu, não por mim, mas pelo bem do todos. Encostei a arma na orelha, puxei o gatilho, e por fim perdi a identidade.

8 de fevereiro de 2017

O preço do Ouro

Esses dias me peguei refletindo: O que faria eu se, como que numa ficção, pudesse optar por ter toda a riqueza e sucesso que eu quisesse sendo que, para isso, eu teria que renunciar ao amor?

O que me trouxe a essa reflexão foi, obviamente, a ficção. Um episódio de uma série intitulada Once upon a time, em que a princesa Cinderela tem de dar seu único filho como pagamento da magia que permitiu que ela conhecesse o príncipe. Ademais, um outro conto, dessa vez mais estritamente mitológico, intitulado O anel dos nibelungos, onde um anão ambicioso também renuncia a todo o amor do mundo para poder roubar um precioso ouro mágico do fundo de um rio. Transcrevendo:

- E se eu lhe disser, anão idiota, que aquele que forjar um anel com o Ouro do Reno poderá vir a ser senhor do universo? - diz Wellgunde, puxando o nariz protuberante de Alberich.
No mesmo instante, as amigas arregalam os olhos para a ninfa indiscreta; em seguida,
arrastam-na para as profundezas do rio, para admoestá-la.
- Vocês está louca, Wellgunde? - diz a loira Flosshilde. - Como pôde revelar o segredo do ouro do Reno a este miserável nibelungo?
- Ora, acalme-se, Flosshilde! - retruca a morena. - Você se esqueceu de que há uma condição para que alguém possa forjar o anel?
No mesmo instante, todas se acalmaram. Sim, há uma condição, que Alberich jamais poderá cumprir - pelo menos elas assim imaginam.
Mas o que elas não sabem é que o anão havia escutado toda a conversa, escondido atrás de um rochedo submerso.
"Condição?! Que condição?...", pensou o anão, intrigado.
De volta à superfície, ele decide voltar à carga.
- E se eu decidir forjar o anel, quem me impedirá? As ninfas riem. Não, ele jamais poderia!
- E por que não? Se jamais poderei, por que não me revelam a razão?
- Porque, para forjar o anel, é preciso antes renunciar ao amor, Alberich! E você não passa de um tolo apaixonado! - diz Wellgunde, passando os braços ao redor do pescoço do anão. - Você estaria disposto a renunciar para sempre ao nosso amor?
Alberich arregala os olhos. No mesmo instante, seu desejo pelas ninfas desaparece.
Desvencilhando-se da ingênua ninfa, ele mergulha até o ouro, esquecido delas e de seu desejo.
Alberich, como todo bom anão, só tem olhos, agora, para o ouro, que faísca diante de seus ávidos olhos. Sim, elas deveriam conhecer melhor a natureza de um verdadeiro nibelungo!
- Ora, a coisa é tão simples assim? - diz Alberich, esfregando as pequeninas mãos. - Pois, sim ou não, que assim seja: a partir deste momento, renuncio para sempre ao Amor e o amaldiçôo eternamente!

Depois de renunciar ao amor, Alberich se torna um cruel tirano. 

Mas retornando ao mundo real, onde escolhas tais não são tão factíveis, eu fico imaginando como seria se a um de nós - seja eu ou você que está lendo - fosse dado essa escolha, qual seria a opção tomada. De fato, a riqueza é um dos maiores valores da nossa sociedade, junto, supostamente, com o amor, mas vamos colocar nessa balança também as desilusões, as mentiras e injustiças que os humanos sofrem e causam. Fosse alguém cansado de sofrer (como a própria Cinderela, metaforicamente), me pergunto se não haveriam muitos que mergulhariam no fundo do rio, sem pensar duas vezes, e renunciariam a todo o amor possível, renunciando, com ele, ao sofrimento e ao descaso humano, atendendo somente ao sucesso, que é tudo o que os humanos (que tanto falam de amor) nos exigem. Eu mesma me pergunto se, caso uma oportunidade dessas me fosse dada, será que eu não me converteria em uma sociopata milionária, ligando o foda-se para todo mundo?

Não, pois eu tenho algumas pessoas com quem me importar, pessoas que precisam de mim e do resto do meu humanismo. A tentação seria grande, mas a ambição desmedida só poderia me conduzir à loucura, enquanto que o amor manteria a sanidade intacta e os últimos vínculos com tudo o que há de mais humano. Tal foi a minha reflexão, pois. E você, o que faria?



3 de fevereiro de 2017

Obsessão

Começou como uma simples ideia, aparentemente brilhante, um projeto, uma plano para o futuro. E lá fui eu. Todos admiraram a minha determinação. Alguns investiram nisso comigo, trocávamos estímulos e comparávamos resultados. Tudo no começo é empolgação, mas nem todos mergulham de cabeça... Muitos desistiram, e ao longo do caminho outros foram desistindo. Isso não é para mim, diziam. Mas eu persisti. Fracos, pensei. Fechei o círculo para me dedicar mais. Comecei a acordar mais cedo e a ir dormir mais tarde. Passava menos tempo em casa ou me trancava no meu quarto. Ás vezes minha irmã me ligava, perguntava se eu não precisava conversar um pouco, talvez isso me fizesse bem. Eu disse que não, que me deixasse em paz, por favor, eu tinha mais o que fazer. E o tempo começou a correr mais rápido. Não tinha mais outra coisa na cabeça. Mal dormia, as vezes nem comia. Não importa, tudo por uma causa justa... Chegaram a me perguntar que tipo de Frankenstein estaria eu criando. Cafeína, calmantes, e nada de luz solar ou ar puro. Quando eu conseguir, sim, quando tudo acabar, eu pensava, eu me preocupo em recuperar a minha saúde - e vai ser em breve. Não me permitia qualquer descanso; todo tempo livre deveria ser aplicado. Não conseguia falar mais sem demonstrar um mínimo de irritação. Minha irmã apareceu na porta do meu quarto, de madrugada, me perguntou se eu não iria dormir. Eu disse a ela para me deixar em paz e fechar a porta, e que não voltasse mais. Mas ela insistiu: Porque você não procura um psiquiatra? Eu me irritei: E porque você não procura um veterinário?! Fechei a porta sem pedir licença e me tranquei. As coisas começavam a dar errado e eu não desistia. Insistia em acreditar naquela doce ilusão a qual eu me entreguei. Vai tudo dar certo, murmurava comigo. Eu negava a verdade que cutucava o meu ombro. Eu já não falava mais com ninguém. Vivia como um fantasma num mundo isolado que eu criara. Lembro de ter visto no espelho uma face pálida de olhos bem abertos. Então, foi esse poltergeist que eu me tornei? Haveria alguém a culpar, a não ser a mim? Eu me deixei enganar por uma utopia e perdi tudo, completamente...

31 de janeiro de 2017

Tristesa


Wake up!
Grab a brush and put a little makeup
Hide the scars to fade away the shake up
Why'd you leave the keys up on the table?
Here you go, create another fable

Levantar da cama tem sido o maior desafio todos os dias, por mais que eu saiba que não posso ficar deitada o tempo todo. Não sinto mais ânimo em tocar a vida... Coloco a melhor roupa, o melhor vestido como se eu realmente me sentisse feliz com isso. Preciso, a todo custo, ocultar esse sentimento. Talvez uma maquiagem bem feita esconda o susto e o desamparo que a vida tem me dado nos aspectos que eu menos esperava. Não tenho grana e o começo da carreira é sórdido, e os meus amigos, todos, parecem ter me abandonado. Me pergunto se é que eu algum dia realmente tive amigos, ou se todos esses que eu considerava amigos só mantinham alguma relação estritamente cordial enquanto tinham algum interesse. Terapias não ajudam em nada... Ademais, a friendzone parece ser ainda pior que os círculos do Inferno de Dante. Uma pessoa que você estima e nem sequer lembra seu nome, mas quer te usar como step. Típico conto do vigário, no qual já não é a primeira vez que eu caio. Sonho com o dia em que serei lembrada por algo singelo e não apenas por favores ou dinheiro. Mas espero não ter que acordar tão logo em seguida...

14 de janeiro de 2017

Tempestade e Ímpeto


Para uma grande amante de literatura como eu, esse movimento literário alemão do século XVIII - sturm und drang - é um delírio, em vários sentidos. Pois veja que a sua proposta é justamente algo impraticável: a abdicação da razão em prol dos sentimentos, ora sentimentos puros e ingênuos, ora sentimentos maiores e nobres, e não raro sentimentos mesquinhos e torpes. Tudo depende da ótica. Mas o que eu mais gosto é do romance - e por romance eu quero dizer história de amor - da época: caracterizado por um sofrimento e angústia extremos, geralmente fadadas à morte. O amor parece um erro, um pecado, um crime capital. Mas, de qualquer forma, essas visões romantizadas, puritanas e fantasistas são interessantes justamente quando entrechocadas com a realidade - a nossa realidade do século XXI e a realidade dos próprios autores, de quatro séculos atrás, posto que o mundo nunca foi tão assim bonitinho. Amor, ah, o amor. É interessante como fenômeno social, mas como questão rotineira e pessoal você se pergunta se realmente existe. Repare que nunca dá pra falar em sentimentos no aspecto social sem se relacionar com milhares de estigmas e dogmas e comportamentos socialmente esperados. Não seria, então, apenas um instinto humano de afeto, que pode se relacionar de milhares de formas - muito além do amor romântico? Eu não sei mais. Uma hora a gente fica descrente e até indiferente, apática. Não querendo mais saber dessas mentiras moralizantes que nos contaram por séculos. Dizem que amor é expressado nas famílias, mas o que eu mais vejo é famílias inteiras brigando selvagemente. E, por outro lado, o amor ao trabalho, ao conhecimento, à natureza e a qualquer outra coisa que não seres humanos me parece muito mais puro e tenro. Na verdade, eu não sei o que é o amor. Ninguém sabe. É interessante vê-lo trabalhado na concepção artística de movimentos literários, mas na essência ninguém capta, ninguém explica. Pois veja: afora as tempestades e os ímpetos, a nobreza de espírito, o egoísmo e os instintos humanos, o que é o amor?

14 de novembro de 2016

Conversa


Parece uma tortura. Você conhece aquela pessoa, de longe ou com quem você tem um convívio estritamente formal, que você admira ou lhe intriga em algum ponto, e fica se perguntando: "Como ele chegou até ali?", ou "Porque é que ele faz isso?", mas não pode, não tem a oportunidade de perguntar. Não é intromissão. É só vontade de saber mais, de conhecê-lo mais de perto, quem sabe ter uma perspectiva diferente. Essa pessoa parece tão interessante... Mas não dá. A não ser que surja uma oportunidade, em uma roda de conversa, num ambiente fora dali, de (numa chance de 1/1000) alguém tocar nesse assunto, você não vai conseguir descobrir diretamente. E investigar via stalking não é a mesma coisa. Só queria que ele me desse a oportunidade de, olhando-me diretamente, me contar tudo, tudo o que quisesse, e se quiser me ouvir também. Mas isso são coisas que eu especulo enquanto ligo para os meus amigos e eles desligam rapidamente porque tem coisas melhores para fazer. Conversas se limitam a uma troca breve de trivialidades orais. Se encontro uma amiga de longa data não dá para conversar muito, porque ela já tem que ir. E eu me pergunto, então, se essas conversas longas e sinceras não são coisas que a gente perdeu, esquecemos lá na infância. Talvez seja eu a única a querer conversar. Talvez seja ingenuidade minha esperar que alguém sinta o mesmo. Ninguém liga se não estiver precisando de alguma coisa; ninguém se aproxima se não for por interesse - e é por isso que eu não posso me aproximar: porque não tenho um interesse tão direto para mostrar, só tenho a minha curiosidade, a minha admiração ou intriga, e não parece ser suficiente. Da mesma forma, já não espero mais ligações, mensagens ou que me chamem no corredor sem esperar, complacentemente, que a pessoa vá direto ao ponto e diga o que precisa. Melhor ficar na sua e não ser inconveniente, e se desacostumar de esperar das pessoas o que seria perfeitamente humano.

2 de setembro de 2016

Esperança



Só agora eu consegui visualizar a dimensão da dificuldade, e isso me fez estremecer. Eu admito que sou muito orgulhosa, e muito teimosa, e pode ser que eu não tenha feito uma boa escolha; pode ser que eu tenha assumido algo que exige demais de mim e de qualquer outra pessoa comum. Mas nunca é demais acreditar que eu consigo. Ainda que remotamente. Eu sacrifico muita coisa, abro mão de outras, me esforço, me disciplino, faço tudo o que estiver ao meu alcance e vou além. Desistir não é errado, mas assumir precipitadamente uma derrota é tolice. Sinceramente, eu não sei se eu consigo. Mas vou continuar dando o melhor de mim. É acertar ou errar: são essas as possibilidades. Teimosia, coragem, sorte, força, medo, tudo isso é necessário, mas o resultado eu só vejo depois. E que seja o melhor possível, independente do êxito.

18 de julho de 2016

Outra postagem sem título



Is all that we see or seem
But a dream within a dream?
(Edgar Allan Poe)

Já fazem cinco dias que eu não carrego meu celular e a bateria ainda está em 60%. Já quase esqueci como se fazem ligações; também não me lembro muito bem das senhas dos meus e-mails e de todas as parafernálias que o mundo digital exige. Tenho me dedicado muito. Tenho medo, e isso tira meu sono. E quando eu durmo eu sonho com as histórias dos livros que leio para me distrair, para esquecer a irrealidade da vida; sonho com pessoas que não existem, quiçá para esquecer a mediocridade das pessoas que existem. Sonho com sonhos que não são meus, mas que são mais realistas e tangíveis do que esse medo que me amortece. Pretendo, sim, voltar a atuar dentro dos parâmetros humanos de sociabilidade, mas por hora preciso, primeiramente, parar de divagar por sonhos lúcidos, onde não há nada a constar.

11 de julho de 2016

Concentração



Tem sido difícil manter a mente em um lugar só. Parece que meus pensamentos estão sempre dispostos a viajar, e se dispersam para muito longe de onde eles deveriam estar. Talvez seja justamente um subterfúgio mental para o excesso de enfoque em uma ou algumas atividades só. Talvez seja a necessidade - infelizmente inviável, nesta altura - de descansar, relaxar. É nesses momentos em que surgem boas ideias, reconheço, mas esse desvio constante é estarrecedor. Reconheço que eu estou cansada, mas a última coisa que me é permitida é parar agora.

2 de julho de 2016

Misantropia





























Sonho que eu tenho 
por noites seguidas
do mundo acabando 
num belo dia.

Sem choro nem despedida,
mesmo porque ninguém se conhecia.

Chame de misantropia 
ou como quiser
mas você não me engana.

Não perde quem desconfia.


Culpa da nossa 
- tão odiosa -
 natureza humana
(Matanza - Odiosa Natureza Humana)

Estou cada vez mais cansada de tudo isso, sociedade.

Sempre tem alguém pronto pra me desferir centenas de acusações impensadas. É, veja que as pessoas se atém a ideologias que nem elas mesmas tentam compreender. Qualquer coisa que pareça complicado demais já soa como diferente e tem que ser imediatamente retaliado, na cabeça da maioria.

Sinto como se vivêssemos em um mundo onde ninguém pondera, ninguém explora a própria capacidade cerebral de raciocinar (e sobretudo de racionalizar); um mundo onde todo mundo é um impulsivo juiz inquisidor.

E não bastasse isso, também sempre tem alguém precisando de um favor seu. Precisando que você faça o serviço mais pesado, que você solucione questões complexas e entregue a resolução de mão beijada. Gente que vem te encher o saco mas que não se dispõe a retribuir ou sequer a agradecer.

Não entendo como se considera que a humanidade está no topo da cadeia evolutiva se, depois de 4,5 bilhões de anos de evolução, as pessoas ainda tem um comportamento tão primitivo.

Chego à conclusão de que a evolução é só mais uma mentira que os próprios humanos inventaram para reconfortar a si mesmos, para acreditar que está tudo bem e que detém o controle. Quando clamar aos céus finalmente se mostrou inútil, esse foi o subterfúgio, o drible maquiado de conhecimento para despistar a nossa própria miséria humana.

Mas é o que tem pra hoje. Desde que me conheço por humana eu prefiro mais a solidão do que a decepção da companhia de alguém. Eu tenho cansado de procurar, cansado de buscar me surpreender, cansada de tudo. Eu gosto de viver porque eu gosto de acreditar, de buscar desafios, conhecimentos; gosto de sentir o vento e a natureza nas batidas do meu próprio coração. Mas essa de ter esperança na humanidade, ah, essa eu já venho descartando faz um tempo.

17 de junho de 2016

Monografia (Episódio IV)


Depois de superado aquela frustração inicial com metodologia e prazos, eu vejo que não tenho nada de que me queixar. Afinal, estou fazendo uma das coisas que mais aprecio na vida e que fiz durante toda a graduação - escrever - e, muito além disso, estou a escrever sobre um tema que eu escolhi e que eu amo - defendendo a minha ideia como se eu estivesse prestes a entrar num ringue e cair na porrada por ela. Sem querer eu acredito que esteja inovando demais para uma simples monografia; mas se no meu primeiro trabalho monográfico eu estou assim ah então eu me sinto encendiar só com a ideia de escrever novamente com tanta paixão ou até mais na segunda graduação, no mestrado e no doutorado, e além. Eu me queixei muito a respeito da forma e da submissão à toda a academicidade, sim; mas agora vou me redimir. Tudo na vida tem as suas formalidades e burocracias; se não fosse uma mínima regulamentação jamais existiria ordem. Eu estou feliz com isso; cumpro a minha missão sem maiores estresses agora. Afinal, eu estou apenas encerrando o primeiro passo de uma longa caminhada...

16 de junho de 2016

Medo


Por mais que eu siga em frente, dê o melhor de mim, eu tenho que admitir esse sentimento. Devo admitir que o temor de falhar, de perder tudo, de não conseguir, é grande. E isso me bloqueia, às vezes. Tira meu sono. Tudo é possível e eu não posso combater as possibilidades adversas. Vou fazer tudo o que me couber, sim, e com esmero, na tênue esperança de que seja o suficiente. Eu me empenho cada segundo do dia, e tento não pensar nisso. Eu já falhei algumas vezes, e eu prefiro pensar que ao menos eu tentei, que é válida a tentativa, o mero dissabor da luta, que a experiência em si também engrandece. É difícil lidar com isso... Ao menos eu sei que não sou a única, por mais que eu esteja sozinha nessa empreitada - somos um exercito, uma legião onde é cada um por si. Até porque, se nós pararmos para pensar, o nosso pior inimigo não é aquele que está ao seu lado pelo simples fato de ser adversário na mesma conquista; ele se torna inimigo quando ele tenta implantar em você o medo, tenta te fazer crer que você é incapaz e ele não. É por isso que por vezes é bom tornar-se momentaneamente surda aos urros do mundo. Medo é bom para frear a adrenalina. Como uma pequena dose de whisky é suficiente para incitar nossa coragem, uma pequena dose de medo é suficiente para contar nossa adrenalina. Mas uma dose pequena, ressalto; não se deixe embriagar pelo medo, não deixe-o dominar; apenas lide com ele.

15 de junho de 2016

Tédio




Não consigo encontrar nada que me agrade. Tudo o que eu faço, por mais que já tenha encontrado, algum dia, alguma satisfação nessa atividade, me frustra; parece que agora eu não encontro satisfação em nada, e quanto mais eu procuro, mais eu me aborreço. A rotina, por mais diversificada que seja, tem se tornado insuportável. As coisas não exigem raciocínio mais; tudo são atividades repetitivas, mecânicas, que não nos trazem estímulos. Meus amigos também andam com aquela cara de comida que passou do tempo de cozimento: dissolvidos pelo excesso, crus pela falta. Meus livros não me convidam mais a lê-los, as músicas não me convencem de que merecem ser ouvidas: é tudo igual. E mesmo se eu apelar a qualquer extremo - sair badalar a noite toda, beber, ou mesmo simplesmente ir viajar - ainda assim vou sentir o quão ridícula é a sensação e quão vazio é o objetivo de eu estar ali. Ah, mundo. Me convença de que você merece a minha existência.

12 de junho de 2016

A droga do amor



Existem coisas, na sociedade, que eu não sei se são mentiras reiteradamente contadas para fazer com que um instinto de sobrevivência pareça bonitinho ou então são verdades tão maquiadas que mal e mal conseguimos ver a sua verdadeira essência.

E ao meu ver a maior incógnita da sociedade é esse tão aclamado amor.


Pois eu nunca encontrei quem se dispusesse a amar, amar no sentido cristão-romantista que eu lia em Goethe e Castelo Branco. Ninguém se dispõe a dar um pouco de si (mas exige que o outro se entregue completamente); o amor se resume a sexo e contas a pagar.

Pois tente suprimir, mesmo que apenas inicialmente, o sexo para ver quanto tempo o amor dura.

Eu queria descobrir o que é o amor, juro que queria. Queria chegar ao êxtase afetivo e vir aqui um dia escrever ao mundo virtual o quanto essa postagem está equivocada.

Eu sou humana e me permito essa esperança.

Mas eu devo admitir que, no fundo, eu não me importe tanto. Ao menos não por hora.

Paixão é um sentimento infrutífero (que, ao menos na minha experiência, nunca passou de paixão meramente) e que só trás aborrecimentos. Talvez a única e conclamada exceção à regra do desamor seja o sentimento impretérito que os nossos pais (ou muito dos nossos genitores) cultivam por nós. Afora isso, meus caros conterrâneos humanos, só existem ilusões à la Romeu e Julieta que só fazem nos entediar.

E honestamente, como eu disse anteriormente, eu sonho com o dia em que eu vou lembrar desse dia tão frio, vou reler essa postagem e me aperceber enganada, quiçá por ter conhecido o outro lado. Me permito essa esperança porque agora eu não vejo nenhuma perspectiva.

6 de junho de 2016

Ideias revolucionárias


Quando você tem treze anos você acha que vai mudar o mundo. 

Você acha que é diferente, que ninguém te entende - típico sentimento adolescente. Mas não tarda pra você descobrir que o que é mais comum no mundo é ser diferente e incompreendido - ser diferente é justamente a normalidade, ao ponto de que você precisa compreender, primeiro, como é ser comum para depois querer ser diferente. 

Você queria ser um gênio, mas seu cérebro não é super dotado.

Queria ser artista, mas seus desenhos não tem boa estética nem sequer um padrão inovador.

Quer ser mais inteligente, e se mata de estudar, justamente para chegar no mesmo lugar em que todos chegam.

Talvez com disciplina, assiduidade e esmero você chegue mais longe do que a maioria das pessoas da sua idade e posição social - o que, aliás, é bem provável; você é capaz e sabe disso. Mas riqueza e status social não é tudo o que eu quero...

O ingênuo anseio de mudar o mundo aos poucos se revela um esforço descomunal, maior do que você.

30 de maio de 2016

Remorso



E o pior é ter que lidar com esse sentimento quando justamente o que você quer é dizer a si mesma que você não fez nada de errado, que o melhor é seguir em frente, pensar somente em si. 

Obrigar-se a esfriar, a ignorar o choro, a engolir a dor - ainda que a dor alheia. 

E o seu orgulho te coage violentamente a degolar a mínima possibilidade de pedido de desculpas, e você aceita, se submete a esse orgulho cedo sabendo que no fundo você está sendo cruel consigo mesma também. Pois veja que a pior violência é a violência que cometemos contra nós mesmos, e essa violência pode se manifestar de diversas formas - inclusive na forma em que você suprime toda a sua sensibilidade e humanismo, atropela a sua imatura empatia e permite dominar apenas (isso se é que permite) sentimentos ilusórios como a vaidade e a arrogância, a preponderância falsa de si. 

Todos os filósofos que eu li e dos quais eu me gabo de fazer eruditas referências nos meus trabalhos não me ensinaram isso - definitivamente não -, seja por qualquer das vias da razão ou da emoção. E também a minha mãe, a mais sábia de todos, sempre me ensinou a esclarecer tudo, a ser humilde, a me dobrar quando necessário, a tentar por todos os meios reparar o prejuízo, a me redimir pelo meu erro. 

Mas eu prefiro ignorar. Sim, eu prefiro não querer saber como é que eu cheguei a esse ponto, prefiro deixar tudo para trás. Fingir que eu não me acuso, fingir que não me defendo e não confesso. Me guiar por uma luz artificial e falha fingindo que ela é o sol, e ao menos, no fundo, bem lá no fundo, saber que o pior erro foi cometido contra mim mesma, a quem eu não perdoo e a quem eu não peço perdão.

26 de maio de 2016

Frio


Perdi as contas de quantas vezes eu vi meus dedos roxos e eu perdi a sensibilidade nessa região. Lábios rachados, o vento tão gelado que parece que vai cortar a pele... A grama amanhece dura, as árvores que não perderam sua folhagem no outono agora tem suas folhas duramente agredidas, o clima obstinado a não deixar nenhuma. É a época que as estatísticas apontam como maior período de incidência de crimes famélicos aqui no sul e demais regiões frias; talvez seja porque o espírito humano se encruece e as necessidades sejam maiores e supervenientes. Talvez seja, também, uma decorrência de uma tendência primitiva de acreditar, ainda que instintivamente, de que não há muita perspectiva de sobrevivência toda vez que a natureza nos agride. De fato, é uma estação apocalíptica - mas é um apocalipse frio, desumano, insensível, com cada um se preocupando - apenas - com o próprio fim e não o da espécie.
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