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12 de agosto de 2016

Vaidade



Homens podem ser escolhidos como cartas em um leque de baralho quando você sabe usar a estética em seu favor (e talvez a recíproca seja verdadeira). Mas eu ainda não cheguei a esse ponto - não por aparência mas por um resquício de senso moral que me compele a respeitar as pessoas em sua essência. E quanto à minha própria essência, eu tento exteriorizá-la da melhor forma possível, tanto é que às vezes eu me sinto obcecada por manter, sempre, a melhor aparência possível e impecável, ainda que de maneira simples. A natureza me foi muito favorável, o que me permite dispensar, ao menos por hora, toda a química e tratamento estético que outros se utilizam com frequência, mas de qualquer forma eu não dispenso meus cuidados, dos mais fundamentais à saúde, como alimentação balanceada e exercícios físicos, aos mais triviais, como roupas, unhas, maquiagem, acessórios. Beleza não é uma imposição, não é uma opressão. Beleza é status, é saúde, é poder. Mesmo se você já tiver mais idade: beleza é vaidade, e vaidade é amor-próprio, e amor-próprio é equilíbrio, é segurança. Acho que até os homens deveriam apostar mais na aparência, até porque para eles é tão mais simples. Vaidade é o conhecimento da medida de si, exteriormente e interiormente, e a valorização de si mesma é tudo.

14 de julho de 2016

Tempo


Eu contabilizo o tempo pelos meus devaneios. Uma lufada de ar me trás tantas lembranças... Como há uma ano atrás, quando o clima estava exatamente como hoje: esse clima, esse tempo idêntico me faz lembrar do ano passado, de como eu me sentia, mas também do ano anterior, e de outras épocas, sendo um vendaval de sensações e lembranças na mesma brisa. Queria conseguir ser mais sincera com o que eu sinto, em vez de atropelar tudo, fingir que sentimentos tão tenros não estão ali. Queria poder apreciar cada exígua sensação com o maior deleite. Queria pode dissolver essa divisão do tempo que separa as minhas lembranças e sensações. Mas eu não posso. Não posso apagar todos os ponteiros de relógios, todos os calendários, todos os cronômetros e demais parafernálias que aprisionam a vida no desconhecimento da liberdade. Da mesma maneira que não posso sair e apreciar o tímido calor do sol no meio do inverno, tendo que me limitar a olhar de dentro de uma clausura fria e úmida. Tão sinestésico que não faz sentido, e você sente isso tudo numa fração de segundos. Bem. Acabou. Até amanhã.

30 de maio de 2016

Remorso



E o pior é ter que lidar com esse sentimento quando justamente o que você quer é dizer a si mesma que você não fez nada de errado, que o melhor é seguir em frente, pensar somente em si. 

Obrigar-se a esfriar, a ignorar o choro, a engolir a dor - ainda que a dor alheia. 

E o seu orgulho te coage violentamente a degolar a mínima possibilidade de pedido de desculpas, e você aceita, se submete a esse orgulho cedo sabendo que no fundo você está sendo cruel consigo mesma também. Pois veja que a pior violência é a violência que cometemos contra nós mesmos, e essa violência pode se manifestar de diversas formas - inclusive na forma em que você suprime toda a sua sensibilidade e humanismo, atropela a sua imatura empatia e permite dominar apenas (isso se é que permite) sentimentos ilusórios como a vaidade e a arrogância, a preponderância falsa de si. 

Todos os filósofos que eu li e dos quais eu me gabo de fazer eruditas referências nos meus trabalhos não me ensinaram isso - definitivamente não -, seja por qualquer das vias da razão ou da emoção. E também a minha mãe, a mais sábia de todos, sempre me ensinou a esclarecer tudo, a ser humilde, a me dobrar quando necessário, a tentar por todos os meios reparar o prejuízo, a me redimir pelo meu erro. 

Mas eu prefiro ignorar. Sim, eu prefiro não querer saber como é que eu cheguei a esse ponto, prefiro deixar tudo para trás. Fingir que eu não me acuso, fingir que não me defendo e não confesso. Me guiar por uma luz artificial e falha fingindo que ela é o sol, e ao menos, no fundo, bem lá no fundo, saber que o pior erro foi cometido contra mim mesma, a quem eu não perdoo e a quem eu não peço perdão.

14 de maio de 2016

Crítica da Razão Criminosa - Michael Gregorio (Resenha e crítica)


 A obra é de 2006 escrita por Michael Gregório - pseudônimo dos autores Daniela de Gregorio e Michael Jacob. Conforme a orelha do livro, 

Na fria Königsberg, na Prússia da virada do século 18 para o 19, a pena do grande filósofo Immanuel Kant escrevia páginas obscuras. Depois de ter tratado da mente comum em A crítica da razão pura, seu mais famoso livro, agora enveredava pela mente doentia de um serial killer. Mas o que aquelas idéias secretas poderiam ter com os assassinatos que apavoravam a cidade em 1804? Acompanhe neste 'Crítica da Razão Criminosa' as investigações do jovem magistrado Hanno Stiffeniis, um dos poucos que conversou com Kant sobre as páginas secretas.

E de fato, é uma obra que tem como personagem central - ou um de seus personagens centrais - o famoso filósofo Imanuel Kant (sim, aquele que fez densos tratados sobre filosofia e epistemologia, mais constantemente associado ao racionalismo). 

E é justamente sobre esse ponto, em cima desse aspecto estritamente racional do filósofo que os autores desenvolvem a trama: Na narrativa, Kant teria escrito uma obra não sobre a mente humana racional que podem ser exploradas por habilidades cognitivas comuns, mas que seriam exploradas precipuamente por mentes de pessoas pré-destinadas ao crime.

Ao meu ver, os autores foram muito fieis ao contexto social e histórico, e mesmo pessoal, que envolveu o filósofo em vida - afinal, como retratado na obra, Kant passou toda a sua vida na cidade hoje extinta de Königsberg, na Prússia, levando uma vida reclusa como todo bom filósofo, mantendo relações com um círculo muito estrito de pessoas (como no livro, em que Kant tinha amizade com o magistrado Hanno, outro personagem principal).

Mas no que concerne à fidelidade com o aspecto intelectual do filósofo, eu acredito que os autores não seguiram tão estritamente - até porque o legado de Imanuel Kant é tão complexo (a razão pura nada mais é do que a abstração irrestrita do pensamento, num nível complicado de entender), que me pareceu muito inteligente essa jogada dos autores com as ideias do filósofo, ainda que em termos de acurácia deixe a desejar.

O enredo é muito bem construído, bem como o seu desenvolvimento no lapso temporal, associada à também muito boa e pertinente construção dos personagens secundários. Obra de leitura fácil e um dos poucos romances contemporâneos que consegue ser ao mesmo tempo intrigante e estupefaciente, dada à sua inteligência.

Gênero: Suspense ou terror.

Nota: 9/10.
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