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15 de fevereiro de 2017

Descrença



Take me to church
I'll worship like a dog at the shrine of your lies
I'll tell you my sins
So you can sharpen your knife
Offer me that deathless death
Good God, let me give you my life
(Hozier)

Sendo uma convicta ateia há anos, uma coisa na qual eu sempre vi motivos para escárnio foram os tão aclamados "milagres". Eu acabo de me formar e vejo gente falando que a graduação foi uma "benção" divina - mas me parece que quem trouxe a benção foram as nossas famílias que pagaram fortunas em mensalidades e livros e legislações, bem como a benção foi de nossa própria autoria, porque se não fosse nós mesmos estudar por dias a fio, fazer trabalhos, apresentações, pesquisas, por vezes viagens, não teríamos nos formado. Pois veja que tudo o que eu tenho foi eu mesma que consegui, ou alguém por mim, ou mesmo algo que, por vantagem social, me foi mais fácil ou acessível. Sei de gente que passa por necessidades básicas clamando por milagres; mas eu nunca vi uma panela de comida feita descer voando do céu e parar na mesa dessas pessoas; não, no máximo eu vi associações e pessoas generosas (todas ateias, por certo) fazendo caridade ou acionando o Estado para intervir. Reconheço que nem tudo é plenamente palpável pelo mero esforço; mas eu nunca vi ou tive notícias, como nos contos bíblicos, de coisas impossíveis acontecendo simplesmente com base em poderes mágicos, como o caso dos peixes caírem na rede às centenas para que o povo que ouve "a palavra" não passe fome. Não estou desprezando o valor da fé, contudo; a fé é a força que nos motiva. Mas é a fé humana, palpável, tangível, que tem valor - e não a crença absurda, cega e desarrazoada em mentiras míticas que vai te salvar.

21 de dezembro de 2016

Ateísmo ortodoxo


O ateísmo é tão normal quanto a religião, apontam estudos; desde que nos conhecemos como humanos, para cada pessoa que formulava uma divindade, havia uma pessoa que contestava explicações sem evidências. Por muitos séculos a religião predominou, e predomina ainda, muito embora hoje sejamos livres para sermos ateus - e há quem diga que no futuro não mais existirão religiões. Seja como for, o fato é que o ateísmo cresce a cada dia, propagado principalmente pelas nossas mídias sociais - divulgado como se fosse uma filosofia de vida, uma ideologia política ou até mesmo uma religião - e não uma mera ausência de crença, como pressupõe bem o termo nas suas origens. Ou seja, as pessoas não se contentam em não acreditar, elas precisam ridicularizar as crendices alheias, expondo todos os podres da religião, como se a religião fosse, isoladamente, a resposta de todos os males da humanidade. Eu sou ateia fazem anos, e nunca sofri preconceito como tal - isso porque, não crendo, não existe necessidade de exteriorizar a ausência de crença: não há necessidade de rezar, de ir a templos, de cantar hinos, de fazer penitências. Mas a maioria dos ateus que eu conheço se sentem muito satisfeitos e engajados em expor a ausência de crença e tentar impor-lhe - como os religiosos extremistas fazem com as suas crenças. A adoção do ateísmo se dá sempre através de um processo racional - ou deveria ser; mas ao meu ver nos meios ateus, predominantemente em universidades, são os lugares onde há mais arrogância e intolerância, e menos compaixão. Parece difícil admitir que a religião é história, é cultura, é em si mesma uma filosofia de vida. Que existem crentelhos estúpidos eu admito (e inclusive estes são muitos), mas que existem muitos religiosos que fazem atos de caridade sincera que praticamente nenhum ateu faria, isso existe. Ateus costumam se esconder atrás da ciência que eles mesmos não dominam e ainda não explica tudo. Em questões políticas e principalmente no embate contra a religião, são muito mais conservadores e ortodoxos, e muito mais difíceis de lidar. Triste notar que um processo (que deveria ser natural) de não-crença é relacionado frequentemente com ataques públicos a imagens religiosas e a religiosos em si, e não a pessoas que simplesmente são indiferentes a crendices. Enquanto fazem propagandas públicas estimulando a tolerância religiosa, creio eu que deveria haver campanhas estimulando os ateus mais ortodoxos a serem menos prepotentes, porque a ausência de crença, no final das contas, não os torna melhores do que ninguém. 

Recomendo a leitura do livro "A irreligião do futuro", de Jean-Marie Guyau.

"Ateísmo engraçadinho existe desde a Antiguidade, diz historiador britânico". Folha de São Paulo, 05 de março de 2016. Link aqui

"Redes sociais alavancam movimento ateísta no Brasil". Paloupes, 23 de outubro de 2016. Link aqui

"Ateísmo é tão natural quanto religião". Hypescience, 17 de fevereiro de 2016. Link aqui.

17 de junho de 2016

Monografia (Episódio IV)


Depois de superado aquela frustração inicial com metodologia e prazos, eu vejo que não tenho nada de que me queixar. Afinal, estou fazendo uma das coisas que mais aprecio na vida e que fiz durante toda a graduação - escrever - e, muito além disso, estou a escrever sobre um tema que eu escolhi e que eu amo - defendendo a minha ideia como se eu estivesse prestes a entrar num ringue e cair na porrada por ela. Sem querer eu acredito que esteja inovando demais para uma simples monografia; mas se no meu primeiro trabalho monográfico eu estou assim ah então eu me sinto encendiar só com a ideia de escrever novamente com tanta paixão ou até mais na segunda graduação, no mestrado e no doutorado, e além. Eu me queixei muito a respeito da forma e da submissão à toda a academicidade, sim; mas agora vou me redimir. Tudo na vida tem as suas formalidades e burocracias; se não fosse uma mínima regulamentação jamais existiria ordem. Eu estou feliz com isso; cumpro a minha missão sem maiores estresses agora. Afinal, eu estou apenas encerrando o primeiro passo de uma longa caminhada...

5 de maio de 2016

Poliglotia

Um dia eu achei isso lindo; achava que se eu fosse poliglota eu seria como aqueles sábios eremitas dos livros que conhecendo meia dúzia de idiomas fluentemente previriam o futuro da humanidade. Mas não, não é assim. O que ocorre é que você tem que manter mais de um idioma vivo, muito bem vivo ali na sua cabeça. E não é só um idioma: é toda uma estrutura linguística com as suas construções específicas, é um idioma com um respaldo cultural que envolve contextos por vezes diferentes do seu, são fonemas completamente diferentes do que você está habituada, é tudo, ou muita coisa, diferente, e aí você tem que manter esse pequeno universo idiomático em movimento dentro da sua cabeça, ou, pior ainda, manter mais de um universo desses aceso e funcionando em diferentes lados do seu cérebro. Me sinto infinitamente feliz por ser ainda jovem e sã, porque imagina só como seria se eu tivesse uns parafusos fora do lugar e tivesse, ainda, que lidar com toda essa muvuca de idiomas aqui na minha massa cinzenta? Às vezes eu tô de boa lendo um livro em inglês e aí chega alguém falando em português e eu fico like: Oh, god! Portuguese? I forgot portuguese! Ou então, depois de sair de manhã de uma prova ultra difícil de francês, aparece um gringo na rua e empieza a hablar español conmigo y moi, je ne comprend pas rien! Há ocasiões em que isso acontece com tanta frequência - sim, caras pessoas da internet, eu moro numa verdadeira torre de Babel em forma de cidade turística -, com tanta frequência que eu chego a ficar com dor de cabeça e me dá um branco generalizado, e o meu cérebro esquece a estrutura de todas as palavras e eu fico simplesmente revendo nos meus pensamentos a impressão de sentimentos e sensações, sem poder exteriorizar nada de forma concreta. Nessa minha loucura obstinada por idiomas - obstinação da minha parte, porque tem gente que eu sei que conhece bem mais idiomas que eu e não faz essa confusão toda - eu ainda tenho uns outros idiomas que eu quero aprender, mas esses eu deixo para um futuro indeterminado, um futuro em que eu, quem sabe, consiga delimitar cada um deles com precisão aqui na minha cabeça, como se fosse uma biblioteca ou estante.

4 de abril de 2016

Ariel - José Enrique Rodó (Resenha)

Carregada de brilhantes metáforas, a obra - que oscila entre o gênero puramente literário e a escrita científica - conta a história de um professor (Próspero, como era chamado pelos seus alunos, em homenagem a um mago) que, sentado à sua sala, fala aos seus alunos. 
Ele discorre sobre como esses alunos, jovens e cheios de vigor como são, são o futuro da América Latina; são a força propulsora capaz de mudar o presente e o futuro. 
Assim como a personagem Ariel na obra de Shakespeare, "A Tempestade", representa uma criatura alada, superior às brutalidades terrenas, assim acredita o professor que a juventude, com o vigor do início da vida e com a ânsia pelo conhecimento, com o potencial de se renovar a cada geração, é "o processo evolutivo das sociedades". 
Importante ressaltar que fica subentendido que por juventude, entende-se juventude latinoamericana. 
O autor faz parte do movimento literário conhecido no Brasil como modernismo, mas em sua vertente urugaia, que visa valorizar mais o aspecto regional em despeito das ideias estrangeiras, seguindo, ainda, o antigo ideal bolivariano de uma América Latina unificada. Críticos dizem que essa obra é um reflexo de um "pensamento histórico" em transformação, consideradas as circunstâncias.
Com a espessa alusão à juventude, o autor faz um apelo para que os jovens exerçam mais seu lado humano em detrimento do utilitarismo excessivamente racionalista dos norte-americanos.

—Mientras la muchedumbre pasa, yo observo que, aunque ella no mira el cielo, el cielo la mira. Sobre su masa indiferente y oscura, como tierra del surco, algo desciende de lo alto. La vibración de las estrellas se parece al movimiento de unas manos de sembrador.

31 de março de 2016

Monografia



Então sobrevém todas aquelas questões para você mesma, do gênero:

Porque raios eu fui escolher esse maldito curso?

Porque foi que eu não abandonei enquanto era tempo - porque é que eu, sabendo que o mundo é vasto, que eu sou capaz e as possibilidades são infinitas, cheguei até aqui?

Porque é que eu não me atrevi, não mudei de rumo?

Mas, e agora?

Porque, então, criatura, eu fui escolher um tema tão recente, mas tão recente que só se atreveram a abordá-lo pessoas que, como eu, não sabem bem que rumo tomar?

Porque é que eu fui chamar esse professor, que se acha o PH-deus?

Porque é que eu leio livros e livros, invisto milhões do meu restrito orçamento em cópias, decoro normas técnicas ridículas e métodos e padrões toscos que em realidade não refletem conhecimento nenhum, me submeto a avaliações e revisões que só deturpam as minhas ideias originais, formato um amontoado de informações e chamo aquilo de citação, e ainda digo "amém" pra tudo - porque eu faço isso?

Monografia, como bem sugere o termo, implica numa redação sobre um único assunto - então convenhamos que uma pichação em um muro ou uma receita de bolo podem ser consideradas, da mesma forma, monógrafas. Oh, sociedade, porque não um pouco mais de liberdade no pensamento, nas formas, nas ideias, nas expressões?

Estou aqui a redigir a minha indignação porque eu, justamente, venho perdendo alguns prazos, e o meu orientador me tem martirizado; o coordenador do curso talvez não bote fé em mim (ele pode pensar assim se desconhecer o meu potencial) e a universidade está pouco se lixando para quem vai cumprir no prazo um dos inúmeros protocolos mesquinhos do sistema educacional universiotário.

Ainda vou mudar o mundo com as minhas ideias revolucionárias, mas primeiro eu preciso cumprir algumas obrigações. Por hora, sociedade, deixa eu voltar para a minha tese...

15 de janeiro de 2016

Senso crítico e racionalidade


Dica do dia:

Não se deixe levar por crenças; permita-se apenas convencer por fatos e evidências devidamente verificadas.

22 de dezembro de 2015

SOS Ciências Humanas

Olá, pessoas. 

Caso eu não tenha alguma nova ideia de postagem para compartilhar com vós antes que termine o ano (eu já tenho bolado algumas), gostaria de partilhar com todos o meu outro blog, SOS Ciências Humanas (http://soscienciashumanas.blogspot.com.br/), onde eu pretendo partilhar textos, artigos e quaisquer coisas de relevantes no mundo acadêmico das ciências humanas, grande parte de minha autoria mas de livre compartilhamento. Ainda está em construção mas espero que seja útil.

Um grande abraço

29 de dezembro de 2011

Vários, Um, ou nem Um


Na infância enfiam na nossa cabeça ideias sobre um Céu e um Inferno e um Deus que pune pelas mínimas coisas, e quando você cresce e as suas próprias ideias falam mais alto você inconscientemente tem medo. Hoje você vê uma dualidade no mundo "intelectual": ateus vs cristãos. Ao contrário do que você pode pensar - principalmente se você for ateu - existe muito cristão inteligente e muito ateu babaca. Não é regra, é claro; aliás, devo admitir que o contrário é muito mais comum. Mas um exemplo desse conflito fica claro nessa época do ano: os dois lados se dizem altamente esclarecidos. De um lado quem é ateu ou não-religioso resolve não fazer nada porque já saiu dessa ilusão cristã e acredita que 25/12 é só mais uma data comercial e não aproveita o fato de que uma vez no ano o mundo dá uma trégua para fazer algo especial do jeito que você é livre para fazer. Por outro lado os cristãos dizem que o natal é aniversário de Jesus e te enxem de mensagens gift no facebook ou e-mails com mensagens super apelativas, no fundo não entendendo bulhufas do "espírito natalino". Eu achei que eu não ia viver o suficiente para ver esse processo de "televização" da internet, mas durante o ano um grupo fica atacando o outro com coisas tão superficiais e ridículas que você percebe que não se trata mais de uma questão de razão ou de fé, mas sim de idiotice pura e falta do que fazer. Se você não toma partido ou está em cima do muro você tem que admitir que nem um dos dois lados está correto: nem as teorias de Darwin e nem o Inferno de Dante. Charles Darwin reducia a espécie humana a meros instintos e seleção natural, e Dante Alighiere descrevia um inferno onde tinha lugar específico para cada insignificante pecado - se você não foi batizado você vai para o inferno. Vamos falar sério: uma pessoa pode escolher qual partido tomar durante a vida, mas ela não vai para o túmulo tendo a verdade comprovada, tampouco vai voltar de lá para contar. Vale lembrar que por baixo da razão e da fé existe um ser humano e que se existir um Deus ou vários deuses ou nada seguindo plenamente a nossa concepção de justiça, o indivíduo humano não vai ser julgado pelo que ele acreditava ou pelas suas ideias, mas sim pelo seu caráter.

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