3 de fevereiro de 2017

Obsessão

Começou como uma simples ideia, aparentemente brilhante, um projeto, uma plano para o futuro. E lá fui eu. Todos admiraram a minha determinação. Alguns investiram nisso comigo, trocávamos estímulos e comparávamos resultados. Tudo no começo é empolgação, mas nem todos mergulham de cabeça... Muitos desistiram, e ao longo do caminho outros foram desistindo. Isso não é para mim, diziam. Mas eu persisti. Fracos, pensei. Fechei o círculo para me dedicar mais. Comecei a acordar mais cedo e a ir dormir mais tarde. Passava menos tempo em casa ou me trancava no meu quarto. Ás vezes minha irmã me ligava, perguntava se eu não precisava conversar um pouco, talvez isso me fizesse bem. Eu disse que não, que me deixasse em paz, por favor, eu tinha mais o que fazer. E o tempo começou a correr mais rápido. Não tinha mais outra coisa na cabeça. Mal dormia, as vezes nem comia. Não importa, tudo por uma causa justa... Chegaram a me perguntar que tipo de Frankenstein estaria eu criando. Cafeína, calmantes, e nada de luz solar ou ar puro. Quando eu conseguir, sim, quando tudo acabar, eu pensava, eu me preocupo em recuperar a minha saúde - e vai ser em breve. Não me permitia qualquer descanso; todo tempo livre deveria ser aplicado. Não conseguia falar mais sem demonstrar um mínimo de irritação. Minha irmã apareceu na porta do meu quarto, de madrugada, me perguntou se eu não iria dormir. Eu disse a ela para me deixar em paz e fechar a porta, e que não voltasse mais. Mas ela insistiu: Porque você não procura um psiquiatra? Eu me irritei: E porque você não procura um veterinário?! Fechei a porta sem pedir licença e me tranquei. As coisas começavam a dar errado e eu não desistia. Insistia em acreditar naquela doce ilusão a qual eu me entreguei. Vai tudo dar certo, murmurava comigo. Eu negava a verdade que cutucava o meu ombro. Eu já não falava mais com ninguém. Vivia como um fantasma num mundo isolado que eu criara. Lembro de ter visto no espelho uma face pálida de olhos bem abertos. Então, foi esse poltergeist que eu me tornei? Haveria alguém a culpar, a não ser a mim? Eu me deixei enganar por uma utopia e perdi tudo, completamente...

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