8 de fevereiro de 2017

O preço do Ouro

Esses dias me peguei refletindo: O que faria eu se, como que numa ficção, pudesse optar por ter toda a riqueza e sucesso que eu quisesse sendo que, para isso, eu teria que renunciar ao amor?

O que me trouxe a essa reflexão foi, obviamente, a ficção. Um episódio de uma série intitulada Once upon a time, em que a princesa Cinderela tem de dar seu único filho como pagamento da magia que permitiu que ela conhecesse o príncipe. Ademais, um outro conto, dessa vez mais estritamente mitológico, intitulado O anel dos nibelungos, onde um anão ambicioso também renuncia a todo o amor do mundo para poder roubar um precioso ouro mágico do fundo de um rio. Transcrevendo:

- E se eu lhe disser, anão idiota, que aquele que forjar um anel com o Ouro do Reno poderá vir a ser senhor do universo? - diz Wellgunde, puxando o nariz protuberante de Alberich.
No mesmo instante, as amigas arregalam os olhos para a ninfa indiscreta; em seguida,
arrastam-na para as profundezas do rio, para admoestá-la.
- Vocês está louca, Wellgunde? - diz a loira Flosshilde. - Como pôde revelar o segredo do ouro do Reno a este miserável nibelungo?
- Ora, acalme-se, Flosshilde! - retruca a morena. - Você se esqueceu de que há uma condição para que alguém possa forjar o anel?
No mesmo instante, todas se acalmaram. Sim, há uma condição, que Alberich jamais poderá cumprir - pelo menos elas assim imaginam.
Mas o que elas não sabem é que o anão havia escutado toda a conversa, escondido atrás de um rochedo submerso.
"Condição?! Que condição?...", pensou o anão, intrigado.
De volta à superfície, ele decide voltar à carga.
- E se eu decidir forjar o anel, quem me impedirá? As ninfas riem. Não, ele jamais poderia!
- E por que não? Se jamais poderei, por que não me revelam a razão?
- Porque, para forjar o anel, é preciso antes renunciar ao amor, Alberich! E você não passa de um tolo apaixonado! - diz Wellgunde, passando os braços ao redor do pescoço do anão. - Você estaria disposto a renunciar para sempre ao nosso amor?
Alberich arregala os olhos. No mesmo instante, seu desejo pelas ninfas desaparece.
Desvencilhando-se da ingênua ninfa, ele mergulha até o ouro, esquecido delas e de seu desejo.
Alberich, como todo bom anão, só tem olhos, agora, para o ouro, que faísca diante de seus ávidos olhos. Sim, elas deveriam conhecer melhor a natureza de um verdadeiro nibelungo!
- Ora, a coisa é tão simples assim? - diz Alberich, esfregando as pequeninas mãos. - Pois, sim ou não, que assim seja: a partir deste momento, renuncio para sempre ao Amor e o amaldiçôo eternamente!

Depois de renunciar ao amor, Alberich se torna um cruel tirano. 

Mas retornando ao mundo real, onde escolhas tais não são tão factíveis, eu fico imaginando como seria se a um de nós - seja eu ou você que está lendo - fosse dado essa escolha, qual seria a opção tomada. De fato, a riqueza é um dos maiores valores da nossa sociedade, junto, supostamente, com o amor, mas vamos colocar nessa balança também as desilusões, as mentiras e injustiças que os humanos sofrem e causam. Fosse alguém cansado de sofrer (como a própria Cinderela, metaforicamente), me pergunto se não haveriam muitos que mergulhariam no fundo do rio, sem pensar duas vezes, e renunciariam a todo o amor possível, renunciando, com ele, ao sofrimento e ao descaso humano, atendendo somente ao sucesso, que é tudo o que os humanos (que tanto falam de amor) nos exigem. Eu mesma me pergunto se, caso uma oportunidade dessas me fosse dada, será que eu não me converteria em uma sociopata milionária, ligando o foda-se para todo mundo?

Não, pois eu tenho algumas pessoas com quem me importar, pessoas que precisam de mim e do resto do meu humanismo. A tentação seria grande, mas a ambição desmedida só poderia me conduzir à loucura, enquanto que o amor manteria a sanidade intacta e os últimos vínculos com tudo o que há de mais humano. Tal foi a minha reflexão, pois. E você, o que faria?



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