31 de maio de 2016

Desânimo


Já perdi as contas de quantas vezes eu senti aquela expectativa, aquele frio na barriga, aquela vontade de me entregar... 




E realmente, eu, centenas, milhares de vezes, me entreguei, mergulhei de cabeça, dei tudo de mim - para me decepcionar, ou falhar no meu intento, ou ver que o que eu realmente queria estava mais além.

E ainda sinto a vontade de recomeçar, de levantar e sair à caça, atirar mil vezes para talvez acertar - mas como eu já fiz isso tantas vezes eu já conheço o roteiro de cor e salteado, e essa previsibilidade dos fatos humanos tira a graça das coisas.

É que nem se apaixonar por uma pessoa que você acabou de conhecer ou arranjar um novo emprego. Você ama a perspectiva de estar numa situação nova, vivenciar novas emoções, mesmo consciente de que a rotina vai logo logo amargar essa adrenalina e que nem todo mundo tem essa mesma empolgação.

Você sabe que talvez não dê certo e a probabilidade de não ser como você imagina é gigante, mas ainda assim você vai, você começa - ou melhor, fazia isso outrora, quando você ainda era inexperiente nos assuntos de seres humanos sociáveis. Agora são poucas as novidades, ninguém lhe surpreende - ao contrário, todas as pessoas parecem demasiado óbvias e enfadonhas. O que antes parecia a mais pura magia agora parece uma ilusão de óptica das mais mesquinhas.

30 de maio de 2016

Remorso



E o pior é ter que lidar com esse sentimento quando justamente o que você quer é dizer a si mesma que você não fez nada de errado, que o melhor é seguir em frente, pensar somente em si. 

Obrigar-se a esfriar, a ignorar o choro, a engolir a dor - ainda que a dor alheia. 

E o seu orgulho te coage violentamente a degolar a mínima possibilidade de pedido de desculpas, e você aceita, se submete a esse orgulho cedo sabendo que no fundo você está sendo cruel consigo mesma também. Pois veja que a pior violência é a violência que cometemos contra nós mesmos, e essa violência pode se manifestar de diversas formas - inclusive na forma em que você suprime toda a sua sensibilidade e humanismo, atropela a sua imatura empatia e permite dominar apenas (isso se é que permite) sentimentos ilusórios como a vaidade e a arrogância, a preponderância falsa de si. 

Todos os filósofos que eu li e dos quais eu me gabo de fazer eruditas referências nos meus trabalhos não me ensinaram isso - definitivamente não -, seja por qualquer das vias da razão ou da emoção. E também a minha mãe, a mais sábia de todos, sempre me ensinou a esclarecer tudo, a ser humilde, a me dobrar quando necessário, a tentar por todos os meios reparar o prejuízo, a me redimir pelo meu erro. 

Mas eu prefiro ignorar. Sim, eu prefiro não querer saber como é que eu cheguei a esse ponto, prefiro deixar tudo para trás. Fingir que eu não me acuso, fingir que não me defendo e não confesso. Me guiar por uma luz artificial e falha fingindo que ela é o sol, e ao menos, no fundo, bem lá no fundo, saber que o pior erro foi cometido contra mim mesma, a quem eu não perdoo e a quem eu não peço perdão.

29 de maio de 2016

Saudade



Sinto muita falta das nossas conversas. Sinto falta do seu cheiro, da sua voz, dos seus olhos, da nossa loucura na cama. Eu gostava tanto de sentir o calor do seu corpo tão junto ao meu, e da segurança que você me dava... Me pergunto como seria ter você aqui. Me pego pensando em você com grande frequência: Onde estará? Será que vai bem? Nunca mais tive nenhuma notícia sua; será que ainda se lembra de mim? E caso se lembre, pensa em mim com frequência, como eu, será que me reserva algum carinho? Homem do céu, eu prefiro não pensar nisso. Prefiro evitar a todo custo qualquer lembrança sua, de modo a evitar também esse vazio que você deixou. No começo, sim, eu revia todas as fotos, ouvia por horas intermináveis as nossas músicas, relia todas as mensagens, tentava reviver o sentimento das poesias que eu escrevi para você... Mas a angústia me faria enlouquecer e eu recrudesci. A vida me compeliu a seguir em frente, mas eu confesso que por vezes me sinto só. Eu não sei por onde você anda mas no íntimo eu imploro para que você volte. Ai meu deus...

28 de maio de 2016

Amor de Perdição - Camilo Castelo Branco (Resenha e crítica)


 Eis um clássico da língua portuguesa muito cobrado em provas de vestibulares. Pertencente à tradição do romantismo português (Século XVIII, com influência da Revolução Francesa notável na obra), tem todo aquele contexto familiar extremamente tradicional, típico da época em que a trama se passa (1862).

Bom para aqueles que gostam de histórias de amor; mas não tão bom assim para aqueles que não gostam de finais trágicos.

Na minha singela opinião, a obra não faz jus ao título de clássico. Não tem boa construção de enredo e nem sequer dos personagens - que têm um comportamento inconstante e não seguem o perfil inicialmente proposto pelo autor. Na mesma linha, a obra se atém a um moralismo exagerado, até mesmo para a época - o que é explicável apenas pela escola ou tradição literária a que pertence o autor (o Romantismo tardio, ou ultrarromantismo, em Portugal), cujas características são, justamente, a negação da realidade, o apego a valores ultrapassados, paixões exageradas e inatingíveis (como no caso do livro).

Eis um clássico muito decepcionante.

MAS, ao meu ver, se o livro tivesse passado, na época, pelo crivo de um leitor crítico, o resultado teria sido mil vezes melhor, pois a essência da estória, nota-se, é boa.

É, basicamente, a estória de amor de Simão e Tereza, dois jovens pertencentes a famílias rivais. Assim, tendo, além de uma certa distância entre os dois, a total desaprovação das famílias, o casal apaixonado luta com todas as forças pelo seu amor. Tereza, já prometida para outro, é internada em um convento, depois de se recusar a casar; Simão, envolvido com uma briga na qual acaba baleando o primo de Tereza, para quem ela era prometida, é condenado ao exílio, depois de permanecer por muito tempo preso, graças à influência de seu pai (caso contrário a pena seria a morte).

Se você gosta de livros estupendos de tão bons, não procure esse livro.

Nota: 6 / 10

27 de maio de 2016

Lirismo Virtual



Acho que desde que eu descobri e comecei a me utilizar da internet, um dos meus maiores prazeres - senão o maior de todos - é passar um bom tempo com blogs. Sério.

Não apenas é muito bom poder se expressar, dar azas à sua criatividade, como descobrir que existem outras pessoas que também pensam como você, sentem como você, tem essa sensibilidade, essa paixão. Pessoas que escrevem textos, poesias, contos, crônicas, quilômetros e quilômetros de lirismo - igual a você. Gente que também se expressa de um modo apaixonado, melancólico, sarcástico, sonhador.

Em que pese que ter ficado muito tempo sem atuar no blog, ter renegado a mim mesma a escrita e a leitura não acadêmica, é aqui que eu gosto de satisfazer meu ímpeto e necessidade literária. Não exagero se digo que tem muita gente que escreve em blogs de domínio gratuito mil vezes melhor que muito escritor renomado que só consegue esbanjar mediocridade (considere que eu sou uma assídua leitora, e claro, extremamente crítica).

Eu não tenho tanto tempo quanto gostaria - aliás, a maioria das minhas postagens tem sido programadas, ou seja, escritas em momento diverso daquele em que são publicadas - e muito menos consigo acompanhar, sequer ler, os blogs que eu sigo. Mas eu nunca me decepciono quando eu tiro um tempinho pra ler algum post de um blog dentre os que eu sigo (e que não são poucos).

Eu queria que o mundo fosse mais justo. Eu queria um mundo mais democrático onde não haveria tantas pessoas talentosas no anonimato e gente medíocre com títulos de notoriedade. Mas é o que tem pra hoje.

E era isso que eu tinha a dizer, estimados amigos da blogsfera: muito obrigada por fazer dessa arte da palavra escrita um pouquinho mais humana, mais calorosa, mais real e mais virtual ao mesmo tempo. Muito obrigada por partilhar das suas vidas comigo, dos seus sentimentos, das suas angústias e júbilos. E claro, muito obrigada pela atenção e dedicação. Muito obrigada por fazer esse mundo virtual melhor. Vejo vocês no próximo post. =)

26 de maio de 2016

Frio


Perdi as contas de quantas vezes eu vi meus dedos roxos e eu perdi a sensibilidade nessa região. Lábios rachados, o vento tão gelado que parece que vai cortar a pele... A grama amanhece dura, as árvores que não perderam sua folhagem no outono agora tem suas folhas duramente agredidas, o clima obstinado a não deixar nenhuma. É a época que as estatísticas apontam como maior período de incidência de crimes famélicos aqui no sul e demais regiões frias; talvez seja porque o espírito humano se encruece e as necessidades sejam maiores e supervenientes. Talvez seja, também, uma decorrência de uma tendência primitiva de acreditar, ainda que instintivamente, de que não há muita perspectiva de sobrevivência toda vez que a natureza nos agride. De fato, é uma estação apocalíptica - mas é um apocalipse frio, desumano, insensível, com cada um se preocupando - apenas - com o próprio fim e não o da espécie.

24 de maio de 2016

Monografia (Episódio III)




Graças aos seres mitológicos não me acusaram de plágio por causa dos meus erros ao fazer citações. Estou tão cheia de atribuições que eu mal e mal me lembro do meu próprio nome. Na segunda eu tenho três provas, na terça um teste seletivo, na quarta uma revisão geral, na quinta uma inspeção laboral e na sexta não há qualquer chance de "rolê". No sábado, estágio obrigatório e aulas extras e no domingo eu terei que me enfornar dentro de casa, vegetando de tanto estudar, enquanto provavelmente teremos um lindo dia de sol, meus amigos bebem cerveja na beira da piscina e a família se reúne em volta de um divino tortei. Tenho até medo de ver os comentários do orientador à minha tese; tenho ainda que formatar as minhas ideias de acordo com o que é requerido, e não de acordo com as minhas convicções. Tenho que pensar, desde já, em aprontar meu currículo pro processo seletivo do mestrado, em estudar para o Enade, para o Exame de Ordem, em cumprir, por fim, todas as horas extra-curriculares acadêmicas, ver se eu fiz todos os cursos... E eu volto para aquela parte em que eu não sei ainda porque é que eu estou me submetendo a isso tudo. Pois bem... Graças aos seres mitológicos ainda é terça-feira e eu ainda tenho tempo, tenho que me apressar se eu não quiser perder mais uns prazos. Refletir mais sobre a real necessidade da formatação vai ter que ficar para outra hora.

21 de maio de 2016

Procura-se um melhor amigo


E o que eu procuro hoje é um amigo ou amiga. 

Alguém que prometa que não vai me abandonar quando estiver namorando, ou quando encontrar um outro amigo mais rico ou popular.

Alguém que prometa, também, que não vai só lembrar de mim quando precisa de um favor, de dinheiro ou quando não tem outra pessoa para ir junto na balada.

Queria uma amizade que não fosse apenas escutar os problemas e ceder favores acadêmicos/profissionais.

Tô cansada de receber milhões de mensagens de gente me pedindo coisa sob o pretexto de me ter como "amiga" e nunca ceder, nunca estar disponível quando eu peço apenas uma boa conversa. 

Talvez amizade seja mais uma das ilusões que a sociedade nos ensina. Um treino a poses prontas e sorrisos armados para fotos em facebooks. E só.

E talvez a gente só encontre a amizade, ou ao menos um pingo de humanidade nessas relações tão formais, tão convenientes, quando a gente desliga o celular e diz a todo mundo que ele está quebrado, que eu não tenho mais notebook e roubaram meu tablet - eu estou desconectada e não vou me vender novamente para parecer sociável. 

Me parece que a solidão absoluta é mil vezes melhor do que se enganar a esse ponto.

20 de maio de 2016

Coragem


"Only those who will risk going too far can possibly find out how far one can go". 
T. S. Eliot

É quando você tem medo, muito medo. Mas se compele (ou tenta) a seguir em frente. Você começa a questionar a sua própria capacidade, tem medo de não ter forças o suficiente, ao mesmo tempo em que não se permite parar, continua sempre, mesmo que não saiba se vai ou não conseguir. Tenho medo, sim, e enfrento; é bom saborear essa adrenalina. Pois é justamente essa adrenalina que me faz lembrar que eu estou viva, e o quanto é bom viver, o quanto é bom enfrentar os próprios medos e os grandes desafios da vida. Quero ganhar, assumindo o risco - o iminente risco - de perder, apostando mais na minha habilidade de driblar o desafio. É como os instantes anteriores ao toque de largada a uma corrida: Eu sei que eu vou chegar lá, e darei o melhor de mim para ser a primeira.

17 de maio de 2016

O Olho da Rua - Eliane Brum (Resenha e Crítica)


Quando me pedem alguma recomendação de livro, ou quando eu mesma saio em busca de uma nova leitura, eu sempre fico com um pé atrás quando eu vejo que o autor é jornalista. Geralmente jornalistas tem uma escrita cretina, tendenciosa, cheias de verdades vendidas - isso eu falo com base no que eu acompanho na mídia. Mas também conseguem ser justamente o oposto. Quando um jornalista dotado de sensibilidade escreve um romance com base no que vivenciou e observou - até porque jornalistas são seres que viajam muito - a obra é sensacional.

Esse livro que trago aos internautas hoje é uma das exceções a que me refiro (esse e mais um, também de autor jornalista, que será objeto de uma próxima resenha assim que eu terminar de ler). O Olho da Rua retrata de maneira figurativa, quase metafísica, os extremos da realidade da nossa vasta nação - os muitos Brasis de um só país.

Para mim em particular foi fenomenal por causa do momento em específico em que eu o peguei pra ler: simplesmente peguei um volume aleatoriamente na biblioteca, o juntei na pilha de livros para a monografia e saí da biblioteca esperando que eu conseguisse ao menos ler um capítulo (já que eu erroneamente julguei que, pela capa um tanto quanto feia o livro fosse ruim), para me descansar a cabeça de tantas teses e teorias.

E o que a autora me permitiu foi justamente uma viagem. Um passeio a rincões mais inóspitos do Brasil, onde você menos espera que tenha gente, e onde você menos imagina que haja esperança. Um contraste com as nossas mais diversas realidades, ou, como no meu caso, um encontro com elas.

A autora não tem grande estilo na sua escrita, mas tem paixão, tem sensibilidade, tem envolvimento com o retrato. Eu particularmente amo os clássicos literários, amo vocabulários eruditos, alegorias, lirismo, estilização - e toda aquela parafernália que um volume de um livro pode conter. Mas esse livro foi justamente um retorno ao plano dos fatos; a obra me arrancou de toda a idealização a que eu me acostumei e me trouxe para a vida cotidiana de Roraima, do subúrbio do Rio de Janeiro e de São Paulo, lugares onde eu nunca estive física ou psicologicamente até então.

O livro retrata toda a beleza do ser humano mesmo em seus quadros mais trágicos. É um livro inteligente, envolvido, um autobiográfico até (pois veja que a autora põe muito de si em sua arte). Concluindo essa resenha eu nem sei mesmo como classificá-lo (se é que um sentimento de estupefação, como o sentimento que esse livro me trouxe, pode ser classificado em palavras), e nem sei mesmo para que gênero de leitor recomendar. Então, internautas e bloggers que estiverem a ler essa resenha, eu recomendo esse livro fortemente a todos aqueles que estiverem querendo se descontrair sem fugir da vida real, justamente através de uma viagem rumo à realidade social brasileira.

Nota: 8/10

Escrever, para mim, é um ato físico, carnal. Quem me conhece sabe a literalidade com que vivo. E, principalmente, a literalidade com que escrevo. Eu sou o que escrevo. E não é uma imagem retórica. Eu sinto como se cada palavra, escrita dentro do meu corpo com sangue, fluidos, nervos, fosse de sangue, fluidos, nervos. Quando o texto vira palavra escrita, código na tela de um computador, continua sendo carne minha. 

14 de maio de 2016

Crítica da Razão Criminosa - Michael Gregorio (Resenha e crítica)


 A obra é de 2006 escrita por Michael Gregório - pseudônimo dos autores Daniela de Gregorio e Michael Jacob. Conforme a orelha do livro, 

Na fria Königsberg, na Prússia da virada do século 18 para o 19, a pena do grande filósofo Immanuel Kant escrevia páginas obscuras. Depois de ter tratado da mente comum em A crítica da razão pura, seu mais famoso livro, agora enveredava pela mente doentia de um serial killer. Mas o que aquelas idéias secretas poderiam ter com os assassinatos que apavoravam a cidade em 1804? Acompanhe neste 'Crítica da Razão Criminosa' as investigações do jovem magistrado Hanno Stiffeniis, um dos poucos que conversou com Kant sobre as páginas secretas.

E de fato, é uma obra que tem como personagem central - ou um de seus personagens centrais - o famoso filósofo Imanuel Kant (sim, aquele que fez densos tratados sobre filosofia e epistemologia, mais constantemente associado ao racionalismo). 

E é justamente sobre esse ponto, em cima desse aspecto estritamente racional do filósofo que os autores desenvolvem a trama: Na narrativa, Kant teria escrito uma obra não sobre a mente humana racional que podem ser exploradas por habilidades cognitivas comuns, mas que seriam exploradas precipuamente por mentes de pessoas pré-destinadas ao crime.

Ao meu ver, os autores foram muito fieis ao contexto social e histórico, e mesmo pessoal, que envolveu o filósofo em vida - afinal, como retratado na obra, Kant passou toda a sua vida na cidade hoje extinta de Königsberg, na Prússia, levando uma vida reclusa como todo bom filósofo, mantendo relações com um círculo muito estrito de pessoas (como no livro, em que Kant tinha amizade com o magistrado Hanno, outro personagem principal).

Mas no que concerne à fidelidade com o aspecto intelectual do filósofo, eu acredito que os autores não seguiram tão estritamente - até porque o legado de Imanuel Kant é tão complexo (a razão pura nada mais é do que a abstração irrestrita do pensamento, num nível complicado de entender), que me pareceu muito inteligente essa jogada dos autores com as ideias do filósofo, ainda que em termos de acurácia deixe a desejar.

O enredo é muito bem construído, bem como o seu desenvolvimento no lapso temporal, associada à também muito boa e pertinente construção dos personagens secundários. Obra de leitura fácil e um dos poucos romances contemporâneos que consegue ser ao mesmo tempo intrigante e estupefaciente, dada à sua inteligência.

Gênero: Suspense ou terror.

Nota: 9/10.

12 de maio de 2016

Thais - Anatole France (Resenha)


Thais

Obra de 1890, de um autor pouco ou nada conhecido no Brasil (tanto que eu desconfio que seja difícil de encontrar um exemplar do livro hoje em dia), é um romance deveras deleitante, com um tom satírico e bem humorado (e no qual eu percebi uma certa dose de ironia e crítica à religião).

Trata-se da história de um monge e de uma moça, personagem principal que dá o nome à obra, no período da Alta Idade Média, no norte da África. Thais, jovem e bonita, desfruta de tudo o quanto a vida e a sua beleza podem oferecer; riqueza, fama, homens, arte. O monge, por sua vez, vive uma vida de castidade e preces no deserto até o momento em que, perturbado por pequenos demônios, decide deixar o monastério e ir para a cidade, em busca de Thais.

Esse é o transcurso central da obra; a partir desse momento, o autor desenha um percusso literário tão genial que eu não acho digno de antecipar aqui na resenha. Mas eu reforço: O enredo é muito bem construído, com certa dose de crítica e sátira (que ao meu ver é incomum para a época - 1890), e é de uma leitura gostosa, muito embora tenha um vocabulário um tanto quanto rústico.

De um modo geral eu posso dizer que o autor redige a trama com doses de entranhamento filosófico e um toque de sátira sem perder um estilo artístico e literário mais refinado. De maneira objetiva, também retrata muito bem o cristianismo imaturo, ainda nos seus primeiros séculos de existência (aproximadamente em 300 d. C.), na África medieval. Altamente recomendado se você aprecia romances históricos.

10 de maio de 2016

10 Pequenos Prazeres Universitários

1 - Descobrir que o professor não fez chamada bem no dia que você resolveu faltar




Aquele dia em que você estava de saco cheio de aula... E talvez o professor também.

2 - Ir bem em uma prova para a qual você não estudou



É conseguir conciliar assuntos complexos que você não aprofundou com outros assuntos que você leu paralelamente.

3 - Quando o professor diz que a prova é com consulta



Claro, depende ainda do tipo de consulta em questão...

4 - Quando chegam na biblioteca livros novinhos e atualizados



Melhor que isso só quando você compra livros novos pra você mesma.

5 - Quando a prova é toda em questões de múltipla escolha



Se bem que depende do nível de complexidade das questões de múltipla escolha...

6 - Quando a professora resolve aplicar qualquer outro método avaliativo que não seja prova




Pelo menos eu prefiro um semestre cheio de seminários e artigos científicos do que ter que ficar decorando centenas de conceitos pra fazer uma prova tradicional.

7 - Revisar a matéria e ver que você entendeu tudo



Aí como eu sou inteligente! ♥

8 - Tirar notas boas




Nada como ver que o seu esforço valeu a pena. 

 9 - Conciliar bem a teoria com a prática




Existe vida além da universidade!

10 - Fazer amigos 


Afinal, são com eles que fazemos essa longa caminhada!

7 de maio de 2016

Eu, Claudius, Imperador - Robert Graves (Resenha)




Algo um tanto quanto difícil, hoje em dia, encontrar um livro "moderno" de tamanha qualidade - ainda mais seguindo bem o estilo que eu gosto: Romance histórico que não se restringe a ser "épico" e sim é fiel à História; e eu gosto mais ainda quando a fração de História retratada é História antiga, daqueles povos cheios de charme recém saídos do berço da civilização.

Eu, Claudius, Imperador (no original I, Claudius), é o romance, publicado em 1934, de Robert Graves, que retrata, em forma de autobiografia e com uma impressionante fidelidade à história, a vida do imperador romano Cláudio (ou, para quem preferir, Tiberius Claudius Caesar Augustus Germanicus).

Na verdade, o romance retrata a vida toda de Cláudio até o momento em que ele se torna imperador (com o perdão do spoiler). Narra a sua infância, as famílias e dinastias romanas obcecadas pelo poder, os costumes típicos da época e até mesmo a estrutura urbana de Roma em sua época de Império. Também mostra o perfil de perto o perfil, vida e comportamento de outros imperadores que foram contemporâneos a Cláudio.

Segue uma escrita apaixonada e detalhista, que pode parecer massante para quem não é acostumado a leituras rebuscadas. Contem algumas "cenas fortes" das cóleras romanas, mas num geral creio que é recomendável a todos.

5 de maio de 2016

Poliglotia

Um dia eu achei isso lindo; achava que se eu fosse poliglota eu seria como aqueles sábios eremitas dos livros que conhecendo meia dúzia de idiomas fluentemente previriam o futuro da humanidade. Mas não, não é assim. O que ocorre é que você tem que manter mais de um idioma vivo, muito bem vivo ali na sua cabeça. E não é só um idioma: é toda uma estrutura linguística com as suas construções específicas, é um idioma com um respaldo cultural que envolve contextos por vezes diferentes do seu, são fonemas completamente diferentes do que você está habituada, é tudo, ou muita coisa, diferente, e aí você tem que manter esse pequeno universo idiomático em movimento dentro da sua cabeça, ou, pior ainda, manter mais de um universo desses aceso e funcionando em diferentes lados do seu cérebro. Me sinto infinitamente feliz por ser ainda jovem e sã, porque imagina só como seria se eu tivesse uns parafusos fora do lugar e tivesse, ainda, que lidar com toda essa muvuca de idiomas aqui na minha massa cinzenta? Às vezes eu tô de boa lendo um livro em inglês e aí chega alguém falando em português e eu fico like: Oh, god! Portuguese? I forgot portuguese! Ou então, depois de sair de manhã de uma prova ultra difícil de francês, aparece um gringo na rua e empieza a hablar español conmigo y moi, je ne comprend pas rien! Há ocasiões em que isso acontece com tanta frequência - sim, caras pessoas da internet, eu moro numa verdadeira torre de Babel em forma de cidade turística -, com tanta frequência que eu chego a ficar com dor de cabeça e me dá um branco generalizado, e o meu cérebro esquece a estrutura de todas as palavras e eu fico simplesmente revendo nos meus pensamentos a impressão de sentimentos e sensações, sem poder exteriorizar nada de forma concreta. Nessa minha loucura obstinada por idiomas - obstinação da minha parte, porque tem gente que eu sei que conhece bem mais idiomas que eu e não faz essa confusão toda - eu ainda tenho uns outros idiomas que eu quero aprender, mas esses eu deixo para um futuro indeterminado, um futuro em que eu, quem sabe, consiga delimitar cada um deles com precisão aqui na minha cabeça, como se fosse uma biblioteca ou estante.

3 de maio de 2016

Focus




Virou as costas para mim e disse-me que não saberia lidar com a minha falta de tempo; que não suportaria a distância; que eram intoleráveis as mentiras e traições; que as nossas opiniões conflitavam demais. Me desejou a melhor sorte do mundo e foi embora, ressentido. Um a um eu confessei todos os meus crimes; realmente eu fiz coisas terríveis, mas nada que não seja aceitável por um ser humano mediano que segue seus instintos mais primitivos. E ele também não foi um santo o tempo todo. Que seja: ele me dirigiu uma despedida amargurada e se foi sem olhar pra trás, me deixando no chão, de punhos cerrados e chutando o ar, remoendo todas as minhas atitudes e a sua súbita falta. 

Mas antes que a depressão viesse, antes que as lágrimas fizessem menção de chegar, eu me recompus. Refiz a maquiagem, da mesma maneira que refiz centenas de vezes enquanto ele estava ali deitado, liguei para uma amiga e saí curtir a noite que chegava. Eu havia pedido perdão, mas no fundo não lamentava. Agora eu poderia trabalhar até mais tarde sem remorso, poderia ler todos os livros que estavam acumulados, poderia voltar a fazer as comidas que eu gosto e ao meu gosto, poderia correr na rua sem ter que esperar a companhia, poderia me vestir e me arrumar como eu quisesse, sem ter meu look censurado pelo ciúmes. E o melhor de tudo é que eu finalmente poderia jogar fora a minha lista de desculpas esdrúxulas: estou livre. Minha amiga chamou outras amigas, e a primeira rodada do chop foi por minha conta. Em menos de cinco horas eu arranjaria outro cara, e cedo no dia seguinte esse outro cara me deixaria também, mas me deixaria remoendo a minha imagem enquanto eu escolho os acessórios para estrear meu vestido novo. Não foi em vão que ele me jogou na cara todo o meu egoísmo. 

Admito que eu senti sua falta, e muito: uma saudade extremamente dolorida que eu não fiz questão de anestesiar. Mas eu segui em frente, não cedendo à forte tentação de ligar. Os dias foram passando - alguns dias excelentes, outros com más notícias - e eu fui me esquecendo como era estar junto, me acostumando cada vez mais à vida de leoa solitária. Restabeleci por completo meu foco e vi que as minhas prioridades são tão complexas que não há espaço para relacionamento, por hora. Ele se foi, eu errei, e só me restou o meu foco, a minha disciplina e o meu esforço, e a lição de nunca mais atirar para errar.

2 de maio de 2016

Pavio curto


Ranjo os dentes enquanto mentalmente eu seguro um ataque de fúria. Não, eu não tenho paciência. Odeio gente que fica insistindo em pedir o que fazer, ou que faz errado, ou que entende errado e eu tenho que explicar de maneira rudimentar algo complexo. Odeio charmes, chantagens, dramas, joguinhos, surpresas. Odeio indiretas, odeio ter que captar o dito no não dito. Queria que as pessoas falassem abertamente, expressamente, sem ter que ficar observando protocolos implícitos de convivência - a pessoa me pergunta se eu gosto dela e se ofende, se sente mal se eu digo a mais pura verdade - não, eu não gosto de você. Eu não sou obrigada a fingir que sou legal com gente inconveniente e mala. Eu não respiro fundo, não penso duas vezes, e também não me arrependo. Sou aquela que sempre tem iniciativa, que sempre executa os planos e os encerra, e odeio pessoas que ficam o tempo todo com cara de cu perguntando o que fazer. Posso até me dispor a ceder, por uma pessoa ou outra que demonstra boa cooperação, mas não vou bancar a boa moça quando o mundo justamente precisa de gente igual eu.

1 de maio de 2016

Tripalium


Tripálio (em latim: Tripalium) era um instrumento feito de três paus aguçados, algumas vezes ainda munidos de pontas de ferro, no qual os agricultores bateriam o trigo, as espigas de milho, para rasgá-los, esfiapá-los. A maioria dos dicionários, contudo, registra tripálio apenas como instrumento de tortura, o que teria sido originalmente, ou se tornado depois.
Tripálio (do latim tardio "tri" (três) e "palus" (pau) - literalmente, "três paus") é um instrumento romano de tortura, uma espécie de tripé formado por três estacas cravadas no chão na forma de uma pirâmide, no qual eram supliciados os escravos. Daí derivou-se o verbo do latim vulgar tripaliare (ou trepaliare), que significava, inicialmente, torturar alguém no tripálio. (Wikipédia)
Mesmo antes de ser associada aos elementos de tortura medieval, trabalhar significava a perda da liberdade. Quem trabalhava em Roma era o escravo; o patrício estava incumbido das atividades políticas. Era também essa a divisão que chegou ao medievo. A sociedade estava dividida entre os bellatores, os oratores e os laboratores. Os primeiros eram os cavaleiros, responsáveis pela guerra (a palavra tem mesma raiz do nosso bélico); os seguintes, oravam; e os últimos trabalhavam. Na prática, esta divisão era social: a nobreza (que depois viria a perder essa característica da guerra), a igreja e os camponeses. (UFRGS)
Muito além de sinônimo de escravidão e tortura, e mais tarde de dignidade, de obrigação moral, o trabalho tem se tornado sinônimo de independência, autonomia, de crescimento. Um trabalhador é tido como aquele que exerce suas atividades laborais de maneira obrigada, pelo simples e mero impulso de sobrevivência, para ter uns trocados no fim do mês e pagar as contas. Já o profissional é aquele que é qualificado, que tem um bom currículo, aquele que tem perspectiva de carreira, de evolução profissional, de ganhar cada vez mais. E, seja qual for o sentido moderno do termo (por mais que ainda tenha grande relação com os sentidos de sua origem etimológica), o trabalho é uma obrigação, não apenas moral, como também legal: 

Art. 59. Entregar-se alguem habitualmente à ociosidade, sendo válido para o trabalho, sem ter renda que lhe assegure meios bastantes de subsistência, ou prover à própria subsistência mediante ocupação ilícita: Pena – prisão simples, de quinze dias a três meses. Parágrafo único. A aquisição superveniente de renda, que assegure ao condenado meios bastantes de subsistência, extingue a pena. (Decreto-Lei 3.688 de 1941)

A sociedade gira em torno do trabalho. Trabalho, no aspecto coletivo, é sinônimo de desenvolvimento nacional ou regional, de geração de riquezas, de progresso. A preocupação maior dos governos sempre são as taxas de desemprego, seja em épocas de recessão ou, pelo contrário, quando os índices de pessoas desocupadas porque alguém as sustenta é preocupante. Os bons governos criam e extinguem impostos para estimular a implantação de indústrias, de comércios.

E, observando todos esses múltiplos aspectos do trabalho, é curioso notar como em determinadas épocas surgem novas profissões e como elas desaparecem. Veja-se que no Brasil não se houve mais falar da profissão de lavadeira, o que era muito comum na época do fim do Império. Também não se houve falar em parteiras, em digitadores, em telefonistas.

Outras profissões, por outro lado, parecem ser eternas, como a de médica, professora, enfermeira, construtor civil.

Pois bem, pessoas da blogsfera, essa longa reflexão é apenas para desejar a todos um feliz dia do trabalhador - inclusive para aqueles que fazem da sua profissão a internet. Ao meu ver esse é um dos poucos feriados nacionais que é provido de um mínimo de sentido e realmente homenageia alguém. O trabalho é força, é crescimento, é riqueza, é dignidade, é vida. Então pessoas, espero que você estejam felizes com o vosso trabalho, e, se não, que encontrem um trabalho que lhes apraza. Vida longa e mãos a obra.
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