5 de agosto de 2009

Respiração

Era noite, ainda faltando muito para o dia seguinte, as nuvens encobriam as estrelas, a luz da lua era fraca, mas eu ainda podia ver a luz de seus olhos perdendo o brilho. Aqueles olhos castanhos tão profundos... Agora com o olhar vago, inconsciente. Não me restava mais nada a fazer, estava ficando cada vez mais frio e eu não queria juntar-me a ele que tão logo se esvanescia. Era melhor eu agir rápido.
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Ele fora tudo para mim. "Feitos um para o outro" não seria melhor empregado para nenhum outro casal a não ser a nós; gostávamos das mesmas coisas, tínhamos os mesmos costumes, as mesmas crenças. Havíamos nos conhecido na faculdade, pois cursávamos o mesmo período, e até fisicamente nos parecíamos um pouco: cabelos e olhos castanhos, baixinhos e atarracados. Nossas famílias aprovaram nosso romance, todos nossos amigos se conheciam e nós não ficávamos muito tempo separados, onde um estava, o outro estava por perto. Ele era tudo para mim, e aqueles olhos castanhos que para mim eram únicos me diziam o mesmo.
Mas brigas acontecem. Éramos os últimos a sair naquela noite fria, apagávamos as luzes daquele lugar isolado. E antes de descermos para fechar as últimas portas no andar de baixo, tivemos uma séria discussão, próximo a escada. Eu odiava brigar com o meu amor, mas não teve outro jeito senão retrucar. E a briga acabou indo para uma série de ofensas em voz alta, quase gritada, numa disputa para ver quem agredia mais moralmente ao outro. Me dói lembrar, mas em um momento eu passei dos limites, e a reação dele foi me dar uma bofetada no rosto. Eu, irada como estava, segurei seu braço antes que me tocasse, investindo meu peso contra seu corpo, que se desequilibrou no topo da escada, e antes que eu pudesse ao menos perceber, ele rolou escada a baixo...
Se as paredes pudessem falar, elas comprovariam que não era de minha intenção essa queda. Mas aconteceu. Eu desci, a luz estava apagada e eu não tive coragem de acender. Não tive coragem nem ao menos de olhar-lhe de soslaio, e saí correndo feito uma louca, o vento gelado me congelando em movimento. Mas de repente eu parei para recuperar o fôlego, pensei melhor, ou em outras palavras, pensei um pouco (pois até então eu havia agido sem refletir) e decidi voltar. Perguntariam por ele depois!
Eu liguei a luz. Céus, ele estava todo torto, sangrando bastante, mas ainda vivo. Provavelmente havia quebrado alguma coisa. Respirava pesadamente e gemia. Sua respiração agoniada parecia fumaça, mas não fumaça comum, uma fumaça sinistra que ia levando aos poucos sua alma. Eu entrei em desespero. O que eu poderia fazer? Havia mais um lance de escadas, e eu não era forte o suficiente para carregá-lo. Eu tive que fazê-lo rolar mais uma vez.
E já no térreo eu não liguei nenhuma luz. Eu não queria ver aquele respirar doentio outra vez, e só de sentir o cheiro de sangue e de ouvir seus murmúrios eu me atormentava. Então, no escuro, só me restou arrastá-lo. A questão era: O que fazer agora? Ele não veria o sol nascer novamente, disso eu tinha certeza. Então pra que compartilhar o sofrimento com outras pessoas, pra que leva-lo de volta a sua família? Seu corpo perdia o calor, e a morte vinha sorrateira para nos separar. Triste fim, meu querido.
Estávamos, ou melhor, eu estava perto de um rio. Porque não joga-lo n'agua? Ele se afogaria, em sua última agonia a agua entraria em seus pulmões deixando seu corpo mais pesado, mais denso que a agua, fazendo com que ele fosse para o fundo, ou então, com a correnteza forte, ele viraria comida de peixes e pássaros em alto mar. Mas esse não era um fim digno do meu amor.
O carro da empresa que ele jamais ousaria pegar, foi um dos meios para carregá-lo mais facilmente que usei. Havia um cemitério ali perto, com algumas covas recem abertas. Uma definitivamente simples, que não passava de um buraco foi a que eu escolhi. Coloquei-o ao lado do buraco para me despedir. Por um instante as nuvens abriram e a luz lunar mostrou-me mais uma vez seu olhar perdido e uma última espiral de ar saindo de suas vias respiratórias. Estremeci e fechei seus olhos. Ele ficava belo como morto.
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