Não é a típica história de colégio o que vou escrever aqui. Aliás, nem sei se eu seria capaz de escrever uma bela história, dessas de amor, depois de tanto sangue... Toda vez que eu me lembro eu tremo como se a morte estivesse passando por perto; tenho calafrios, minha garganta dói, meus olhos lacrimejam. Talvez você seja incapaz de compreender, mas eu pude ver até onde as pessoas vão. Digo-lhe que a história em questão se passou numa escola comum, começando na pré-escola e envolvendo um garotinho e uma garotinha - mas não continue a ler caso esteja procurando amor ou amizade.
Era o primeiro dia de aula, o primeiro de minha vida, e o primeiro da vida deles também. Daniel, criança estourada, usava óculos desde cedo e tinha um instinto autoritário. E Giulianna, guria curiosa, sagaz e antipática. Eu fui testemunha do primeiro encontro dos dois: começaram disputando uma cadeirinha, até gritarem um com o outro e logo rolaram no chão trocando murros. A professora separou os dois, deixando-lhes de castigo. Ela o encarou zangada e ele a encarou de volta. Foi a única maneira que se encararam durante toda suas amargas trajetórias. A partir daquele dia, eles declararam abertamente guerra. Tentavam prejudicar um ao outro, destruindo amizades e paixonites infantis, e até mesmo trocando ofensas e agressões de vez em quando. Aos dez anos eles costumavam sempre ter cicatrizes e marcas de agressões recentes.
Quando chegou a quinta série, as coisas mudaram um pouco de rumo. Há, não pense você que o ódio fora deixado de lado, não. Confesso que no ano seguinte eles demonstraram uma capacidade intelectual muito acima da média, superando todas as expectativas. Eles também demonstraram muita maturidade, ao não ser quando estavam próximos. Lembro-me que eles passavam horas avaliando o desempenho do adversário para tentar superá-lo. Eles costumavam competir nas notas, nos esportes, até mesmo nas amizades, que não eram muitas, considerando que eles davam mais atenção um ao outro que aos demais. Na oitava série Daniel seria capaz de empurrar um avião, ao passo que Giulianna era a mais veloz das meninas. E isso, sem mencionar os incontáveis livros que eles leram e inúmeros assuntos nos quais já eram leigos.
No ensino médio, o relacionamento só piorou. Muitas vezes eu tive a impressão que eles rosnavam um para o outro quando estavam próximos. Eles sentiam tanta aversão que seus olhos brilhavam, e até mesmo os professores começaram a ter medo dos dois. Nós, os colegas, os evitávamos a todo custo, a não ser quando estávamos certos de que os dois não estavam próximos. Mas a essa altura, meu caro leitor, nós estamos próximos do fim. Um dia, no terceiro ano, quando eu acreditava que finalmente eles se esqueceriam, foi o fim, mas não do jeito que eu imaginara. O diretor, com a melhor das intenções, assinou esse fim: Impôs que os dois fizessem um trabalho juntos. No dia da apresentação, eles começaram a discutir acaloradamente, até que por fim Daniel perdeu a paciência e deu-lhe um tapa na cara, fazendo-a cair no chão. Os colegas riram, e Giulianna, corada pela humilhação, saiu correndo assim que o sinal bateu. No dia seguinte... No dia seguinte, na penúltima aula, ela se plantou na porta, gritando por Daniel. Ele se levantou, insultando-a para logo empalidecer ao ver que ela sacara uma arma. Meus colegas gritaram, o professor quase desmaiara, mas eles continuaram em pé, imóveis, de olhos arregalados, arfando. Por fim, Giulianna puxou o gatilho. Foram três tiros, dois para Daniel e um para ela mesma. Lembrado disso, eu me pergunto quão longe eles iriam se todo aquele ódio fosse transformado em amor. Talvez o cúpido estivesse revoltado com Deus quando acertou aqueles dois. Eles caíram no chão, tendo suas últimas convulsões e empossando-se de sangue. Ah, aquele sangue... Posso dizer que literalmente era um poço de ódio. A última coisa que eu me lembro era que, mesmo depois de mortos, os dois, eles mantiveram o olhar, o mesmo olhar do dia que eles se conheceram, estampados em seus semblantes.






